Outro dia saí pra almoçar e passei uns minutos andando a esmo por ruas que não conhecia. Um casalzinho andava quase ao meu lado e no mesmo ritmo que eu. Foi impossível não prestar atenção ao papo. Era algo como "eu não vou ceder, não posso, por mais que ele queira, eu vou ser forte, vou ganhar dele". O moço, novinho, falava com muita convicção e a menina, seríssima, olhava pra baixo, andando abraçada a ele. Uma cena comovente e fiquei imaginando se seria uma situação complicada no trabalho, na família, no romance.
Ele continuou - e eu, de orelha em pé, observando flores numa casa para disfarçar o interesse. "O demônio pode me tentar, mas eu vou ser forte, o capeta não é nada pra mim, vai me chamar, vai me buscar mas eu não vou cair na dele, não vou".
Qual seria a tentação que fazia a presença do capeta tão clara? Sexo, droga, vagabundagem - a culpa é do Diabo tentando. Estranho essa fé tão irrestrita no Mal. Mas o Mal é a tentação, a fraqueza. E realmente são sensações muito presentes. É preciso dar nome, corpo, cara feia para elas. Eu querer me drogar, fazer o sexo ilícito, largar o emprego, são vontades fortes demais. Mais do que ser bom, competente, correto (estou sendo irônica, você sabe).
Me deu uma pena e não foi a de sempre, da ignorância, da submissão à igreja que seja que o moço frequenta. Pena do medo que se tem das próprias fraquezas e da rigidez com que ele vai encará-las a vida toda. As fraquezas dele são O Capeta, e não é praxe tentar compreender o Diabo, conversar com ele, como se conversa (e como) com Deus.
Aí eu volto àquela conclusão óbvia, batida, mas que fica esquecida e às vezes me impacta. O Inferno somos nós.
