Levei a Nina comigo ao shopping, semana passada, pra deixar uma bolsa no conserto. Zíper. Enfim. Avisada de que não iria comprar, nem ganhar, nada, Ninotchka pediu:
- Vamos na livraria (ela fala levraria) e na loja de brinquedos?
- Só uns minutinhos.
- Então dez minutos na livraria e um minuto na loja de brinquedos.
O diálogo ilustra o quanto ela gosta de livros. É impressionante a vontade que a menina tem de ler. Nem gosta mais de faltar as aulas porque acha que vai perder algo importante e atrasar no aprendizado – eu falo pra ela relaxar, mas é a princesinha da ansiedade.
Deixei-a na seção infantil e fiquei por ali (nunca a perco de vista) ciscando nas prateleiras. De tanto fuçar, acabei encontrando uma daquelas coisas imperdíveis que a gente compra nem que seja pra ficar sem dinheiro pro pão. Ok, exagerei. Nem que seja pra ficar sem dinheiro pro xampu, vai.
É o livro
Mitos Gregos, para crianças. Eu adoro mitos - e gregos, rsrs - mas confesso que só sei deles o pouco que assisti em Ulisses, um desses clássicos de sessão da tarde, e no Sítio do Pica-pau Amarelo. Como esquecer o Minotauro?
Levei o livro pra Nina ver, ela não se animou muito. Manipulei: “vamos dar esse livro pro seu pai, que ele vai amar, e vai querer ler tudo pra você, uma história por noite”. E realmente, o marido não agüenta mais ler todas as versões possíveis dos mesmos contos de fadas.
Interessante que a Nina gosta de todas, das mais infantis dos livrinhos com pop-ups, até as mais hardcore – que são as originais, com os pais de João e Maria os abandonando na floresta por falta de comida em casa, por exemplo.
O fato é que ela está gostando dos mitos. Mas eu, eu estou amando. Chego a sonhar com eles. A linguagem é difícil e daqui a pouco vou
googlear pra saber que diabo é o tal do
Velocino de Ouro, pelo qual Jasão lutou pra recuperar seu trono.
A armadilha pro pai dela não funcionou: a Nina fica muito ansiosa pra ir logo pra cama e como ele demora a chegar, jantar etc. acabo eu mesma lendo (era uma tradição pai-filha, mas fazer o quê). Já lemos o mito de Prometeu e Epimeteu, os deuses encarregados de distribuir os dons aos seres do mundo – e como esqueceram dos pobres humanos, Prometeu roubou um pouco do fogo da roda da biga do deus Hermes para recompensá-los; Zeus ficou furioso porque com fogo até os humanos poderiam chegar a desafiar os deuses; daí o castigou àquela coisa horrível de passar a eternidade preso a uma rocha, com uma águia comendo seu fígado diariamente. Passamos meio batido nessa parte. Epimeteu ficou sozinho e exigiu a presença de uma mulher; os deuses criaram então a Pandora, que abriu a caixa – ahá! – onde estavam guardados os males do mundo.
O deus Hades, que é o senhor dos mortos, é um ser mau e divertido no desenho
Hércules (recomendo demais pra crianças e adultos, divertidíssimo), mas a história de amor dele pela filha da deusa da colheita (esqueci qual), Perséfone, é maravilhosa. E explica as quatro estações – Perséfone passa seis meses por ano com a mãe, que fica feliz e ocorrem então Primavera e Verão, e seis meses com o marido, nas profundezas do inferno, então são os seis meses de frio, em que sua mãe se recolhe, triste.
Nina ficou impressionadíssima. Ao final, perguntei – e agora, que estamos debaixo do cobertor, Perséfone está com a mãe ou com o marido? Ela respondeu, “mas é história, mamãe”.
Já passamos também pelas histórias do rei Midas e do escultor Pigmalião, apaixonado por uma estátua, a Galatéia. Adoráveis. Mas a Nina gostou mesmo da triste história de Eco, a ninfa tagarela. Acho que se identificou, além de ter gostado do desenho. Eco falava tanto que um dia incomodou a deusa Hera, mulher de Zeus, e foi condenada a repetir os finais das frases das outras pessoas. Eco se escondeu na floresta e se apaixonou pelo lindo Narciso. Ele também se irritou com Eco, pois não conseguia conversar, e a tratou mau. Eco morreu de tristeza e só sobrou sua voz. Narciso foi castigado por outra deusa, amiga de Eco, e se afogou enfeitiçado pelo reflexo de sua própria beleza.
Ontem contei o mito de Jasão, que tem a figura feminista interessantíssima de Medéia.O próximo mito será o do Minotauro. Estou louca pra chegar a hora de dormir.
PS: o momento de leitura é interrompido às quintas, quando é noite de
outro deus grego.