Ok, devo admitir que sempre tive motivos pra achar desnecessário o diploma de jornalista. Primeiro por uma questáo pessoal: náo aprendi rigorosamente nada na faculdade, relacionado à profissáo. Náo é exagero. Tudo o que me influenciou a ser a profissional que eu sou veio da grade de Humanas - as aulas de Antropologia, Sociologia, Filosofia (que eu matei muito) e principalmente, de Letras, especialmente, as aulas do maravilhoso e justamente incensado Cristóváo Tezza.
(Porém - tenho que fazer esse adendo - sei que há cursos por aí muito bons que ensinam tudo o que eu deveria ter aprendido na Federal.)
A convivência com os alunos dos cursos de Humanas também foi fundamental pro tal do "aprendizado pra vida".
Tem outra coisa: sáo poucos os países que exigem diploma de jornalista. Náo sei quantos sáo, náo tenho dados porque nunca fui de sindicato. Mas sei que sáo poucos porque os poucos estrangeiros que conheci sempre comentaram "uai, mas tem que ter diploma? no meu país náo". Isso vindo de africanos, canadenses, americanos, argentinos etc.
Bem. Agora caiu a exigência do diploma de jornalista. Finalmente estamos todos da Comunicaçáo Social nivelados - publicitários e relaçóes públicas agora náo sáo mais seres inferiores, hahahah.
Mas daí ontem estava assistindo o jogáo do Corinthians (2x0 contra Inter, uhu) e fui ficando no quentinho do sofá com a Nina babando no colo, tomando meu vinho, sem querer acabei vendo o Jornal da Globo. Coisa que náo fazia há tempos, desde que o William Waack voltou pra ex-mulher.
E a questáo do diploma vem embalada assim:
"Acabou a obrigatoriedade do diploma, um resquício da ditadura" - e o Evaldo Pereira, cuja atuaçáo puxa-saquista em Brasília me dá engulhos, entrevista o dignérrimo Gilmar Mendes sobre o fim da obrigatoriedade: "É o fim do cerceamento da opiniáo, agora todo mundo pode dar opiniáo nos meios de comunicaçáo".
E, ora ora. Náo bastasse o cara dar entrevista andando, ainda me comete essa. E o outro continua lá, subserviente, andandinho com seu microfone e seu crachá de Bozó.
Fala sério, né gente. Uma coisa que me irrita nessa história toda é a confusáo entre jornalista e articulista. Articulista - o Zé Simáo, Clóvis Rossi, Jânio de Freitas (deuses), Barbara Gancia, Rui Castro, José Sarney, Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo, Marina da Silva, Juca Kfouri, Tostáo, sei lá mais quem - pode ser o que for. Eles sáo pagos pra dar opiniáo. E quem banca a opiniáo deles, depois, juridicamente se for preciso, é o dono do jornal.
Jornalista "formado" ganha milequinhento por mês pra fazer ronda em delegacia de polícia; pra decifrar Diário Oficial; pra cumprir dez pautas por dia, do buraco de rua à última do governador.
Náo me venham dizer que jornalista dá opiniáo. Náo dá, náo. Dá fatos. Quem dá opiniáo sáo os articulistas contratados de acordo com o interesse do dono do veículo. Jornalista muitas vezes - quase todo dia - tem que engolir a própria opiniáo e privilegiar as obras e interesses do amigo do dono do jornal, seja ele o presidente, o governador ou o prefeito.
Sem contar os interesses comerciais, dos anunciantes.
Entáo náo me venham com desculpas travestidas de democracia. O STF quis uma vendetta contra a categoria e ponto. Náo está criando liberdade pra nada, mesmo porque os jornais de papel estáo morrendo e o futuro está aqui, nos blogs e twitters e o que mais for inventado nas próximas duas horas.
Dito tudo isso, quero deixar registrada minha disponibilidade para participar de movimentos para o fim da obrigatoriedade do diploma de advogado. Porque já tive que pagar 10% pra esses profissionais completarem petiçòes prontas da internet. E o Brasil ainda é um dos poucos países em que o réu náo pode se defender sozinho.
Estou estudando ainda aderir a um movimento pelo fim do diploma pra fisioterapeutas, porque sou boa de massagem. E de nutricionista, porque no Google eu consigo todos as informaçóes necessárias sobre alimentaçáo.
(Esses dois parágrafos foram ironia, ok? brincadeirinha)
Mas finalmente quero deixar claro que eu náo devia ter escrito nada disso porque deixei de ser jornalista faz tempo e virei assessora de imprensa. E pra isso uma formaçáo em secretariado executivo seria mais útil.
Update (agora no pc que tem til) - Acho que não deixei suficientemente claro no texto que estou PUTA com a forma como tudo foi feito, como se o STF e o Gilmar Mendes estivessem fazendo algo BOM para o país, a cidadania e o escambau. Soy originalmente contra o diploma mas de repente transformaram os jornalistas em vilões contra a Verdade e a Justiça (não aqui no bloguitcho) – quando é o contrário, senão não haveria tanto protesto de corrupto contra a imprensa. Menas, gente. Se a gritaria toda diminuir vai dar pra ouvir o espocar dos champagnes dos empresários.