domingo, 27 de março de 2011

Mire-se no exemplo da Marieta

Daí depois de duas décadas de casamento, marido da amiga decide mudar o formato pra "casamento aberto". Mas esquece de avisá-la. Flagrado exercitando o novo padrão de relacionamento, com uma jovem da metade da idade de ambos, o marido acusa a mulher de sufocante, reacionária, so last century.

Ela é do tipo apaixonada, apesar de todo o tempo juntos. Mesmo com a atitude francamente agressiva do - ? - companheiro, está indecisa entre separar ou aceitar o novo formato que ele oferece: casamento aberto, dos dois lados, mantendo a convivência familiar rotineira.

Eu não sou íntima e nem me foi pedido conselho, mas quando a gente ouve esse tipo de coisa é impossível não meter o bedelho. Fui um pouquinho além dos "oh", "ah" e "pqp" e ponderei que "aceitar" uma situação é, antes de tudo, tê-la imposta.

Não me venham dizer que a fidelidade do casamento também é uma coisa imposta. Claro que é. Mas o contrato foi aceito, não foi? Se tem uma coisa que aprendi no meu recente e já quase falecido trabalho é que contratos podem ser alterados com aditivos. Mas tem de haver negociação e ser de comum acordo. As partes têm de ceder e investir nos novos termos.

Minha amiga é uma mulher bonita, chegando aos 50, que aparenta pelo menos 10 anos a menos e se esforça pra isso: sofre mais que algumas outras com o avanço da idade, tem uma perspectiva negativa da velhice. Esse é um fator que pode levá-la a aceitar a proposta, pois nunca enfrentou a vida sozinha e nunca pensou em se deparar, a essa altura do campeonato, com a solidão. O marido é mirrado mas tem bom papo e uma caixinha de Viagra no bolso.

Tentei animá-la. Lembrei da Marieta Severo: quando separou do Chico, pensei, pô, coitada, tava no topo da cadeia alimentar e agora ficou sozinha. E taí, linda, absoluta, com namorado (ou marido) gato, nada de gurizinho pra aparecer na Caras, não.

É, eu sei, sou boa de ouvido mas ruim de comentário. Foi o que me ocorreu.



PS - Não sou uma pessoa ciumenta, como já discorri aqui, mas não acredito absolutamente em casamento aberto. Sei que há uma ou duas exceções e não me venham com Simone e Sartre, que esse argumento é batido demais.

quarta-feira, 23 de março de 2011

A última Diva



Juntos, para sempre, no Olimpo dos deuses da sala escura.

Não acabou não

Ainda vou continuar a série Europa, passando por Florença e Veneza. Mas antes tenho que ir ali puxar pela memória pra fazer meu currículo.

sexta-feira, 18 de março de 2011

E assim caminha a humanidade

Quarta-feira, no carro, Nina atrás, pensando no que poderia fazer com os R$ 140 que guardou, em moedinhas, no cofre-vaca-que-muge, por 2 anos.
- Posso dar pra você, mamãe, comprar alguma coisa.
- Na verdade, Nina, mamãe vai mesmo precisar de uns trocadinhos daqui a uns dias.
- ?
- Lembra que ano passado a mamãe falou com o chefe que queria deixar o trabalho? E ele não aceitou e quis que eu trabalhasse mais tempo em casa do que lá no escritório?
- Não lembro.
- Mas foi. E agora, passou um tempo, esse tipo de trabalho de longe não deu muito certo, e agora foi decidido que eu não vou mais trabalhar lá.
-Mãe? VOCÊ FOI DEMITIDA???

- ...

E é isso. Mas pelo menos vou ter tempo pra fazer os posts de Florença e Veneza, né.
Ou ainda: pelo menos já conheci Paris. Ufa.



(continua)

Ontem.
- Mamãe, por que no ano passado você quis sair do trabalho? (brava)
- É igual à escola. Imagine que você está numa escola que não te ensina mais nada. Que você está cansada de brincar com as mesmas colegas. Que todo dia é igual, sem nenhuma atividade nova. Você também ia querer mudar de escola.
- Ahn...

sexta-feira, 11 de março de 2011

Paradinha

Duas coisas:

1) MADOKA, tudo bem aí? Tremeu perto de você?
2) Descubra O Que Tem de Almoço Hoje? na casa da Bia.

terça-feira, 1 de março de 2011

Capela Cristina & os vendilhões do templo


Se ressuscitasse hoje, Jesus não poderia expulsar os vendilhões do templo porque eles foram institucionalizados. Lojinha, lojinha, lojinha, em todo canto, por toda parte, com todo tipo de porcariazinha, camisetas, colares, miniaturas, tudo tudo tudo. Particularmente achei chocante que, em pleno Museu do Vaticano*, existam lojinhas internas que atrapalham a vista de algumas obras – como na lindíssima (estou ficando sem novos adjetivos pra tanta grandeza) sala de mapas, ou na de esculturas. Perdi a conta de quantas são, assim como perdi a conta de quantas salas e capelas, aposentos Papais, corredores e mostras – das mais magníficas às mais cafonas – entramos até chegar no Céu da Capela Sistina. Pensando bem, até parece uma alegoria de uma vida católica: primeiro a apreciação resignada dos santos e milagres, o dízimo das comprinhas no caminho, até o milagre da obra-prima de Michelangelo. E eu que não vou pro céu, senhoras e senhores, digo que vale a pena o purgatório.

 Sala dos mapas

Mas vamos devagar e por partes. O Museu do Vaticano é maravilhoso, só que repete os pecados (oops) da Basílica de São Pedro: a amontoação que banaliza. Ou eu não tenho capacidade de ver o “todo”. Porque é meio como estar com twitter, blog, dez sites, tv e rádio ligados ao mesmo tempo, too much information (minha vida, aliás). Daí às vezes o bizarro se sobressai, em detrimento de uma obra mal exposta.

Ah, bem, eu não vou adoçar a pílula. Fiquei muito mal humorada de ver tanta coisa amontoada. Amaldiçoei todos os bispos e padres e sei lá quem (freiras não, que elas não apitam em nada mesmo) que acharam ter capacidade de organizar todas as obras acumuladas em séculos de domínio mundial.


Repara na escultura de duas cabeças atrás de mim: uma das cabeças viradas pra trás. Dãr.


Uma das 394858 lojinhas, esta no caminho da sala de mapas, em frente a alguns. 

O ponto alto antes da Capela Sistina é o quadro dos filósofos, claaaaro. Aquele do Rafael – a Escola de Atenas, com Platão e Aristóteles batendo um papo e vários filósofos em volta, filosofando. Depois que conseguimos driblar um grupo de japoneses, um pouco maior que o habitual, fizemos várias fotos dos filósofos que me acompanhavam com os filósofos-mestres ao fundo.



Placa discreta cobrindo parte da obra - sou implicante?

Pausa pra um fenônomeno: os grupos japoneses (oi Madoka). Já tínhamos reparado, mas aqui o clichê se confirmou. Começamos nossa visita entre dois “bondes” japoneses: um na frente, outro atrás, cerca de 20 turistas, com suas infalíveis máquinas maravilhosas, filmando e fotografando tudo. Tudo não! Só o que é mais importante. Eles vão com as perninhas rápidas tipo a Quadrilha de Morte da Penélope Charmosa, ouvindo a guia, e param exatamente na frente das principais obras, registram e seguem, rapidinho, sem olhar para os lados, para a próxima. 


Quando chega no museu – que na verdade são vários reunidos, mas dá no mesmo – você tem duas opções pra chegar à Capela Sistina: a rápida ou a completa. Escolhemos a completa (fui voto vencido). E demora, viu. Você passa por salas maravilhosas e outras absolutamente irrelevantes – a parte de arte contemporânea, por exemplo, me pareceu fraquinha e desnecessária. Chega-se até a enfrentar corredores inúteis. Aposentos humildes de papas – sei.

Daí quando você acha que já viu todas as Marias-dolorosas, crucificações, nascimentos e santos pra todos os males possíveis, chega finalmente ao auge que é a Capela Sistina. E daí somem todas as dores, nas pernas, no saco, porque a coisa é realmente de embasbacar. Mas prepare-se para o torcicolo, porque vale a pena. Ah, e leve um guia para entender tudo que está à sua volta, porque há informações valiosíssimas que não podem passar despercebidas.

Não pode filmar, não pode fotografar. Comprar os cartazes por 20 euros na lojinha da saída, pode.Uma pista aqui.

Update: por dentro da Capela Sistina, 3D e tudo.

É – ah se eu tivesse de pagar royalties pra cada vez que usar essa palavra – emocionante ficar embaixo daquela cena clássica de Deus criando o homem, com o dedinho e tal. Mesmo. Mas também é muito legal observar a “moldura” das cenas bíblicas. Michelangelo era um ferrado quando fez a Capela, mas tinha um senso de humor refinado pra pintar figuras observando as cenas, até jocosamente.

Tudo isso deve ser largamente conhecido mas eu, até então, nunca tinha pensado em observar esta obra pessoalmente. Então fiquei muito UAU.

A parte mais legal é o Juízo Final e sobre este eu e Mr. Lopes criamos uma verdadeira tese acadêmica: Michelangelo fez um Jesus alheio ao sofrimento humano, impassível, enquanto pessoas são carregadas para o inferno (um detrator de Michelangelo está representado, no canto, com orelhas de asno). Daí a santa igreja não se agüentou com essa representação e colocou um altar ao pé do Juízo, que é a parede reta, não o teto, com o Cristo oficial, sangrento, sofrido, pra dar uma amenizada. Um altar e um crucifixo que atrapalham a visão da caverna com uns macacos, ao pé do juízo. Enfim, outra das dezenas de equívocos na exposição de obras do Vaticano.

Saí vesga de tanta beleza e ao mesmo tempo saturada de tanto ouro. O Coliseu, passeio feito em seguida, foi um alento.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Santos e outros nem tanto

Travei pra continuar contando de Roma. Como se eu não tivesse gostado ou como se algo houvesse ocorrido. E não, mil vezes não. Roma me deixou encantada, a luz de Roma é maravilhosa, e os cheiros, ah os cheiros de Roma, pães, pizzas, salames, fornos a lenha, misturados à fumaça do trânsito. Coisa que adoro é cidade grande. E os sustos de encontrar restos milenares a cada esquina. Descampados com colunas caídas, assim, do nada. Do alto daquelas colinas, quantos séculos nos contemplam? E as pessoas? Homens, mulheres, lindos, arrogantes - sabem que são invejados.

Continuando a caminhada, fomos até o Castelo de Santo Ângelo, logo depois de um almoço com a primeira pizza. Já mencionei que as pizzas são individuais, de 30 cm? E que têm poucos ingredientes, porém os melhores que já provei na vida? Isso em qualquer pizzaria de esquina, mesmo as desprovida de nonnas e mammas. Nunca haverá um prosciutto como o original italiano [drama].

Aprendi que um castelo é praticamente o oposto de um palácio. O Palácio de Versalhes era luxo, poder e sedução; o Castelo é bruto, é proteção, é guerra. Fiz poucas fotos porque minha câmera, nessa altura do campeonato, já estava arriando. Mas sabe um lugar fechado, de pedra, com masmorras, grades, escadas, rampas, tudo bruto, na pedra? Só não tem ponte levadiça. Sufocante, pesado. Era o lugar pra onde os Papas corriam, por um túnel subterrâneo, pra se proteger de possíveis ataques.



Aí você sobe, sobe, e dá de cara com a vista mais maravilhosa de Roma – 360 graus. Foi um dia lindo, de sol, limpo de nuvens, e aquele sol de ladinho, que vai caminhando com você, sem queimar o cocoruto, joga na cidade uma luz que pinta tudo de tons de pastel.

 (repara nas árvores de copas arredondadas)

Tem um restaurante no topo desse castelo, onde já foram feitas dezenas de filmes. Seria o programa mais bacana da cidade, sentar lá e beber olhando essa paisagem. Mas não pode sentar sem consumir e gente, a água mineral custava 4 euros. Faz favor. Além disso, tínhamos alguma pressa de seguir pra Basílica de São Pedro (eu, pelo menos, queria “matar” esse compromisso logo).

Ah. Eu meio que passei mal no Castelo de Santo Ângelo. No caminho para descida há um pátio com masmorras. Há restos de um carro de boi usado para transportar comida. Aí, lendo guia e conversando com os companheiros, descubro que ali eram torturadas as mulheres presas pela Inquisição. Que os dominicanos, ordem à qual pertence o Castelo, eram os criadores e executores da Inquisição. Os que mandavam o povo pra fogueira. Ainda fico emocionada de pensar nisso - e o lugar começou a me sufocar de novo. Pedi pra irmos embora logo.



Chegamos à praça e à Basílica, tudo muito imponente. Confesso que até menos do que eu esperava. Até você reparar nos detalhes. As colunas são gigantescas e de 4 em 4 – de longe parece uma coisa só. Os papas e santos esculpidos no alto são absolutamente impressionantes. E estou falando do prédio anexo. Jacuzice típica de católico: um presépio em tamanho humano no meio da praça. Gente, já era  20 de janeiro. Climão. Nem fiz foto.

O que eu esperava da Basílica de São Pedro? Ver a Pietà de Michelangelo, claro. E o teto da Capela Sistina. Primeiro erro: a Capela Sistina fica no Museu do Vaticano, uma boa caminhadinha à direita – que só foi feita no dia seguinte.

Ah, eu queria ver os guardas suíços vestidos de... bem, nestes trajes, também.

Tudo ali na Basílica foi feito pra impressionar. E o papa seguinte quis impressionar mais que o anterior. E o seguinte, um pouco mais. Assim, sucessivamente, até que a Basílica virasse o que é hoje, um amontoado de obras-primas, sem hierarquia entre si, numa demonstração de riqueza que suplanta qualquer tesouro de cinema. A Basílica é over.

A Pietà está quase escondida, no escuro, numa caixa de vidro, à direita da entrada. Mal se pode vê-la. Não dá pra andar em volta dela. Não dá pra chegar perto. Eu, que me acostumei a praticamente cheirar as obras de arte, mal acostumada com o D’Orsay e o Louvre, fiquei indignada. Eu sei, eu sei, eu sei que um doido atacou a escultura anos atrás, quebrando seu nariz, o que fez com que a proteção fosse aumentada. Mas os suíços vestidos de palhaço bem que podiam guardar melhor as esculturas, ficar em frente delas, impedindo outro louco de marreta de chegar perto.




E o que mais tem lá pra se ver? De tudo. Túmulos, túmulos, túmulos. Tem o de uma tal Rainha Cristina, espero que seja a do filme com a Greta Garbo, daonde minha mãe tirou meu nome (e eu não podia deixar de fazer uma foto lá, né). Um papa, declarado santo (Jeromo), transformado em boneco de cera – coisa mais creepy que já vi. Mas há que se respeitar – as pessoas que o visitam acreditam que ele não apodreça justamente porque é santo. Altares, altares, altares, um encobrindo a visão do outro, um mais grandioso que o anterior, é como se houvesse umas 20 igrejas dentro da basílica – nunca imaginei que fosse assim. E todo o mármore do mundo. Não sei como sobrou mármore pras minhas pias de casa.






Gostei? Bem, tem coisas maravilhosas por lá. Não tenho fé, não me emocionei com nada. A emoção mais forte que tive foi frustração de ter a Pietà tão longe. No meu mandato como Papisa, eu desmembraria as obras de arte da Basílica e transformaria em pelo menos 10 exposições itinerantes. E ainda assim a coisa por lá continuaria grandiosa. Mandaria os guardas ficarem mais próximos das obras de arte, em vez de encaixotá-las. Certeza que angariaria mais fiéis, não reduziria o número de turistas e seria reconhecida como Cristina, A Mecenas. E assim finalizo meu momento-santo neste blog. Ops, não, ainda tem a Capela Sistina - a minha interpretação dela.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Vaticano e Coliseu

Já já conto mais de Roma. Hoje tá bom, tem chuvinha, gostoso pegar um café e ficar lembrando da viagem. Peraí que vou levar a Nina pra escola. ;)

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Uma manhã em Roma

Roma não foi feita num dia. (foram três)
Quem tem boca, vai a Roma. (com euros também se chega lá - muitos)
Em Roma, faça como os romanos. (seja estúpido)
Todos os caminhos levam a Roma. (mas cuidado com a rotatória)
Roma é Amor ao contrário. (às vezes é ódio)

Pois então, como você leu no episódio anterior, chegamos ao aeroporto de Orly com uma ressaca daquelas e amando tanto Paris que, no fundo, nos arrependíamos (eu, pelo menos) de ter incluído a Itália nas férias. Pra deixar Paris, tinha que ser muito bom. E foi difícil sair em todos os sentidos. Fisicamente, eu estava super mal e só queria ar fresco e ficar sentada. Mas tinha fila pra tudo. Uma água custava 3 euros. Na hora de embarcar – fomos de avião porque era mais barato que de trem – passamos por todo aquele esquema de segurança de que já ouvimos falar: bagagens verificadas, tira cinto, separa celular, laptop, líquidos (bisnaguinhas de cremes, porque perfume nem levamos), tudo muito tenso. Daí mais horas na fila do avião, pois os assentos da EasyJet não são marcados e ninguém quer ficar ao lado do banheiro nem na asa. E eu só querendo me encostar.

Eu não sabia: 1) que aviões internacionais servem de free-shop – eles têm revistinhas com produtos sem impostos, mas em euros, o que não é grande vantagem pra nós, brasileiros. 2) que o lanchinho é pago – mas pareceu muito bom, com coisas de uma rede tipo Starbucks 3) que seria tão emocionante sobrevoar os Alpes Suíços.

E aqui eu abro parágrafo, porque merece.
Adoro voar. Adoro sentir o avião chegando lá em cima, no máximo de sua capacidade, depois se ajustando às rotas, acelerando, reduzindo, baixando, taxiando etc. Nosso avião estava indo muito alto mesmo, eu bem mareada, olhando pela janelinha (sempre escolho janelinha), quando surgem logo ali pouco abaixo da canela os Alpes Suíços! Não estava preparada. Uau. Fica tudo muito perto e, pela primeira vez na vida, senti medo e torci pela experiência do comandante. É muito lindo chegar perto dos picos nevados (uia), mesmo tendo assistido mais de três vezes aquele filme sobre a tragédia nos Andes (Alive).

Ok, chegamos a Roma. Já na esteira das malas você percebe o Roman-way-of-life: elas saem de ponta cabeça, meio caindo pelas beiradas, rodinhas tortas, e houve quem se arrependesse de comprar aquele tipo de mala dura, bonitinha, que racha ao ser jogada com força ao chão. Não eu, porque nossas malas, minha e de Mr. Lopes, eram pequenas e simplinhas.

Saímos do aeroporto, encontramos um ônibus tipo de turismo mesmo, confortável, por oito euros cada, pra nos levar à Termini – estação rodoferroviária de Roma, perto de onde ficava nosso hotel. Mr. Lopes comprou baguetes para todos – estávamos sem comer desde a noite anterior, e olha que eu tinha pedido uma frugal omelete, e antes disso, só um muffin no D’Orsay, lembra? Então, verdes de fome. Íamos comer fazendo um bolão se algum grupo de brasileiros reconheceria o pessoal do ex-Los Hermanos que estava fazendo pose sentados na escadaria do aeroporto, tomando um solzinho. Mas fomos chamados pela motorista do ônibus. Primeiro achei super bacana que fosse uma mulher. Mas quando nos instalamos e íamos abocanhar os baguetes, ela gritou que era proibido comer lá dentro. Super grossa.

Já pela periferia de Roma cai a ficha. Circundando casebres e conjuntos habitacionais tipo caixotão, restos de aquedutos milenares, colunas, estátuas, espalhados pela paisagem.

Chegamos. Fora da Termini o barulho do trânsito é ensurdecedor. Comemos os sanduíches (ruins) em pé, ao lado de um semáforo. Carregar malas, mesmo de rodinhas, é um saco. Fico chocada e penso em voltar a pé a Paris quando vejo, ao lado de uma loja qualquer, uma escultura de soldado romano, antiga mesmo, com um monte de sacolas de plástico sujas de restos de comida, enfiados entre os pés. Um motoboy gordão fala alto, com as mãos, com um celular aberto adaptado ao capacete. Roma pode ser feia, suja, malvada. Latina. É nóis.

As ruas de Roma são esquizofrênicas, mudam de traçado e de nome quando bem entendem. Obviamente demoramos a encontrar o hotel. Já eram quase 16h e o sol estava se pondo. Cena engraçadinha do dia: os quatro viajantes numa esquina; dois decidem que devemos subir mais algumas quadras, um que deveríamos descer, e eu olho pra cima, leio a placa e pergunto – gente, não é hotel San Remo? Tá ali. Na cara de todo mundo. Cristina 1 x mapa 0.

Árvores cheias de tangerinas, uma rua cheirosa em Roma.

Finalmente chegamos ao hotel. A recepcionista, uma versão baixinha e enfezada das estátuas encaracoladas e de nariz perfilado, nos trata mal. E me manda raios duplos com o olhar quando pergunto sobre internet no quarto – no hay (ela pensa que no Brasil falamos espanhol). Combinamos sair pra jantar depois de descansar um pouco e tomar banho. Nosso quarto tem banheira e duchinha (ai). Ligo a água, entro debaixo da duchinha, mal e mal pendurada pelo gancho típico europeu, enquanto Mr. Lopes ronca medita. Cinco minutos de banho, olho pra baixo, a banheira está entupida e a água está com uma cor suspeita. Morrendo de nojo, me viro como posso. Vou secar o cabelo, o secador não funciona.

Deixo Mr. Lopes sozinho e desço na esperança de conseguir uma conexão pra falar com a Nina via Skype, e principalmente, pedir providências sobre a banheira. Olho no dicionário: a banheira está entupida = Il bagno è intasato (na verdade, eu devia dizer “la vasca del bagno”). Il bagno è intasato, Il bagno è intasato, Il bagno è intasato. Chego muito decidida à frente da pequena Sofia Loren e mando:

“Il bagno è insalato!”

MA CHE?!

Pano rápido. Ela entendeu, afinal, depois que eu parei de rir (a banheira é uma salada, a tradução) e consegui achar o texto no dicionário. Mas quase me jogou um secador de cabelo novo na cara. Conexão pra skype? Pffff – e eu achei que o hotel era ruim, mas era assim em todo canto. A Itália ainda patina na internet.

Encontramos nossos amigos para o jantar, saímos, já noite fechada e frio, muito frio. Ficamos ali pelos arredores, meio sozinhos, entrando em pequenas lojas ainda abertas, reconhecendo as redondezas, até que fomos abordados por uma linda velhinha de filme italiano, uma nonna! “Querem jantar numa cantina italiana autêntica? Não de coreanos! De italianos, cozinha autêntica, ambiente refinado, prédio antigo”, dizia, em mais ou menos 4 línguas equivocadas diferentes.

Não curti a cara da Nonna e o lugar, duas quadras dali, era cafona. Mas a fome gritou, tinha calefação, a mâitre parecia saber o que fazia. A comida era boa, pena que cada prato individual não alimentaria nem a Nina. Não foi a primeira vez que isso aconteceu: geralmente os cardápios são divididos em “primi piatti”, “secondo piatti”, “entorno” e “insalatti”. Primeiro prato, segundo prato, coisinhas extras tipo porções e saladas. E há restaurante que só valem a pena de se pedir tudo junto, porque as porções são minúsculas. Em outros, um prato só é bem servido: vai da sorte ou da cara-de-pau de olhar os pratos dos clientes já servidos. Assim, um jantar pode sair por mais de 40 euros por pessoa, convenhamos que fica salgado. Ainda não tínhamos descoberto que as pizzas individuais são de 30 cm como as nossas médias.

Lindas vielas.

Dia seguinte

Renovados, com Il bagno consertado, limpinhos, felizes e com frio, fomos finalmente às ruas. E andamos, andamos, andamos. E paramos, paramos, paramos. Em Roma, qualquer canto é histórico. Acontece o tempo todo: vão consertar um cano e pá, encontram um palácio milenar. Daí, aparentemente, sem verba e sem saber muito o que fazer com aquela descoberta mais recente, cercam o negócio e aguardam um patrocínio ou um estudo que desenterre o resto.

Dá até saudade do Niemeyer, curvas retas, saca. Não, mentira.

Fontana di Trevi na sombra, antes do advento da Benetton

Chegamos à Fontana di Trevi. Coisa mais linda. Pena que cheia, lotada, infestada de turistas. Não é uma fonte a ser vista, é um amontoado de turistas a ser ignorado a ponto de se ter uma visão quase mediúnica da fonte. Mas é linda, maravilhosa. Com muita sorte e por ser bem cedo, conseguimos ângulos bons pra registrar.

Olho pra trás e o que vejo? Uma Benetton com 50% de desconto. Nem me animei, não estava lá pra fazer turismo de compras. Mas tinha uma blusa de lã muito linda na vitrine por meros 14 euros. Coisa que aqui seria vendida pelo dobro, uns 100 reais. Me animei, entrei, pedi um minutinho pros meninos. Aí lascou. Tinha casacos lindos por 40 euros. Me joguei: comprei duas blusas e um casaco. Mr. Lopes entrou na dança e, compulsivo por calças, levou 3 de 11 euros. Calças lindas. Os amigos também fizeram compras bacanas, mas nada escandaloso. O chato foi passar o resto do dia carregando sacolas da Benetton.

Passamos por dezenas de pontos turísticos no caminho. A Typewriter, monumento cafona e grandioso onde Mussolini fazia seus discursos e pra onde levou mármore retirado do Coliseu; a Piazza Navona, com a fabulosa Fontana dei Quattro Fiumi, o Pantheon – aqui caiu a ficha de que tudo que vimos em Paris é control c/control v da Roma Antiga. Nem lembro mais o tanto de túmulos de famosos do Pantheon – Rafael, reis e filósofos. Mas o ponto alto deste que seria o “Dia Santo-filosófico” era a igreja Santa Maria Sopra Minerva. Nesta igreja, pertencente à ordem dos dominicanos, Galileu Galilei foi obrigado a abjurar, isto é, a rejeitar tudo o que tinha escrito e dito sobre a terra se mover em torno do sol etc. pra não morrer queimado. Foi BEM emocionante pro Mr. Lopes e pra mim também. Santa Catarina de Siena, uma santa interessante, analfabeta que enfrentou um Papa, está enterrada lá. O frei dominicano e pintor Fra Angelico, do qual vimos obras maravilhosas por toda Roma, também está nesta igreja. Mas ela é impressionante, principalmente, pela beleza do teto azul, incrível, de um azul muito parecido com o do céu da Capela Sistina. E pela luz absolutamente mágica que entra pelos vitrais. Coloquei-me no lugar de um cidadão ignorante, sem jornais, sem internet, sem qualquer contato com o mundo, que ia àquela igreja, séculos atrás, e era levado a crer no Mistério. Seria impossível não ficar fascinado por toda aquela beleza.


Colunas do Pantheon

Coisa chata: muitos monumentos em obras. Fica meio deselegante mas a gente releva.

E por falar em deselegância: sacolas da Benetton por toda parte


A luz inacreditável da igreja de Santa Maria Sopra Minerva, onde Galileu foi humilhado. E a herege fazendo joinha.


Descansinho, que a sacola é pesada.

Acredite, essa é uma igreja pequena pros padrões romanos


Piazza Navona, linda. No verão os restaurantes enchem a praça de mesas e cadeiras.

As lambretas estão por toda parte. De todo tipo. O trânsito tem um zumbido parecido com o das cigarras.
 Outro rio europeu limpo e lindo - o Tevere. *suspiro*

Os irmãos gêmeos de A Rede Social adoram Roma. #brinks


Grandes diferenças entre Paris e Roma. Na primeira você vai aos locais turísticos e encontra franceses trabalhando neles; seu contato com os parisienses é pouco, são observados sempre indo ou voltando do trabalho, indo pra casa (geralmente). Paris é limpa, um grande museu ao ar livre, organizado. Roma é orgânica, como se diz hoje em dia. Você anda pelas ruas misturado aos romanos, que estão indo pra escola, trabalhando, estudando, brigando, dirigindo - até em equipes de reportagem atrás do Berlusconi. Eles convivem com os turistas, sabem que dependem deles, mas os odeiam. Ainda não chegaram à civilidade dos franceses, de aceitar que os novos bárbaros trazem euros fresquinhos e devem ser aceitos e não empalados em praça pública. Até essa metade do dia eu já estava de coração mais leve: deixei Paris com tristeza mas Roma, com seu jeitinho rude, confuso, mal humorado, é encantadora também.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Um breve intervalo...

... porque Roma não foi feita num dia, ora.

*pisc*