Dia em que um louco assassina crianças - e (update) especialmente, meninas?
Dia em que vi uma mãe receber a notícia de que seu filho é um dos mortos. Na tv. Em close.
Dia em que se tentou traçar o perfil do assassino com destaque para informações como "ele é adotado". Em que se espalhou que ele deixou carta com "alusões ao islamismo" e confessando que seria um portador de HIV. Mas a carta não diz nada disso. É a carta de um louco.
Tenho bancado a chatinha-com-causa. A Pernambucanas vende sutiã com enchimento pra crianças de 6 anos, eu deixo mensagens no twitter, espalho links de protesto. Hoje foi a vez da Globo News, mas poderia valer pra maioria dos veículos da grande imprensa. Aliás, para a lambança que foi feita - que noutro país poderia resultar em revolta popular, ataque a minorias como são os muçulmanos - não é preciso diploma mesmo. Mas sou tola.
Hoje a letra daquela música é obsoleta. A dor da gente sai no jornal.
Feliz dia dos Jornalistas?
quinta-feira, 7 de abril de 2011
quarta-feira, 6 de abril de 2011
terça-feira, 29 de março de 2011
Currículo sincero
Como todo mundo sabe, estou às voltas da elaboração do meu currículo, coisa que não faço, digamos, há uns 10 anos. Seria fácil se eu tivesse sido sempre registrada conforme a legislação vigente HAHAHAHAHAAHAHAHAH mas como não aconteceu sempre, tenho que lembrar com muito custo as datas de determinados empregos e frilas. Eu, que não sei bem que dia é hoje. Aí está ficando assim: "período 1997 - tais trabalhos em tais lugares". Tá desorganizado ainda, claro, preciso ver um modelo bacaninha pra arrumar as ideias e as informações. Aí pensei no quanto seria interessante um currículo sincero. - sem disfarces, lacunas, clichês administrativos, mas com as verdadeiras informações sobre cada item. Vamos a ele.
CURRÍCULO (não falo latim, é currículo mesmo) SINCERO
Idade: o suficiente pra ter a experiência que você precisa, mas longe do entusiasmo que você gostaria.
Objetivos: o máximo de salário pelo mínimo de esforço
Disponibilidade para o trabalho: só depois de um baldinho de café, circa 10h
Diferenciais: know how regular, excelente savoir faire
Atuação: jornalista, assessora de imprensa e redatora publicitária - mas não me peça pra escrever "o aniversário é da loja X mas quem ganha o presente é você".
Experiências anteriores: (...)
"Período - 1996 a 1998: estágios em empresas públicas, no setor de comunicação, onde era a única que trabalhava enquanto a maioria engazopava; responsável por bater o cartão das chefias, entre outras atribuições, por ex. tudo".
"Período - 1997/ Ocupação: couro arrancado por meia dúzia de agências de propaganda em SP".
"Período - seis meses em 2001: pau pra toda obra em redação correspondente de grande jornal de SP, aguentando piadas machistas e homofóbicas de chefe cachaceiro que só pautava release".
Línguas estrangeiras: inglês nível Seinfeld, portunhol
Conhecimentos em editoração: parei no Pagemaker 7 e no Corel 8.
Capacidade de liderança: meu mau humor faz com que os office-boys tenham medo de mim.
Pós-graduação ou cursos complementares: tá doido, já demorei pra me formar.
domingo, 27 de março de 2011
Mire-se no exemplo da Marieta
Daí depois de duas décadas de casamento, marido da amiga decide mudar o formato pra "casamento aberto". Mas esquece de avisá-la. Flagrado exercitando o novo padrão de relacionamento, com uma jovem da metade da idade de ambos, o marido acusa a mulher de sufocante, reacionária, so last century.
Ela é do tipo apaixonada, apesar de todo o tempo juntos. Mesmo com a atitude francamente agressiva do - ? - companheiro, está indecisa entre separar ou aceitar o novo formato que ele oferece: casamento aberto, dos dois lados, mantendo a convivência familiar rotineira.
Eu não sou íntima e nem me foi pedido conselho, mas quando a gente ouve esse tipo de coisa é impossível não meter o bedelho. Fui um pouquinho além dos "oh", "ah" e "pqp" e ponderei que "aceitar" uma situação é, antes de tudo, tê-la imposta.
Não me venham dizer que a fidelidade do casamento também é uma coisa imposta. Claro que é. Mas o contrato foi aceito, não foi? Se tem uma coisa que aprendi no meu recente e já quase falecido trabalho é que contratos podem ser alterados com aditivos. Mas tem de haver negociação e ser de comum acordo. As partes têm de ceder e investir nos novos termos.
Minha amiga é uma mulher bonita, chegando aos 50, que aparenta pelo menos 10 anos a menos e se esforça pra isso: sofre mais que algumas outras com o avanço da idade, tem uma perspectiva negativa da velhice. Esse é um fator que pode levá-la a aceitar a proposta, pois nunca enfrentou a vida sozinha e nunca pensou em se deparar, a essa altura do campeonato, com a solidão. O marido é mirrado mas tem bom papo e uma caixinha de Viagra no bolso.
Tentei animá-la. Lembrei da Marieta Severo: quando separou do Chico, pensei, pô, coitada, tava no topo da cadeia alimentar e agora ficou sozinha. E taí, linda, absoluta, com namorado (ou marido) gato, nada de gurizinho pra aparecer na Caras, não.
É, eu sei, sou boa de ouvido mas ruim de comentário. Foi o que me ocorreu.
PS - Não sou uma pessoa ciumenta, como já discorri aqui, mas não acredito absolutamente em casamento aberto. Sei que há uma ou duas exceções e não me venham com Simone e Sartre, que esse argumento é batido demais.
Ela é do tipo apaixonada, apesar de todo o tempo juntos. Mesmo com a atitude francamente agressiva do - ? - companheiro, está indecisa entre separar ou aceitar o novo formato que ele oferece: casamento aberto, dos dois lados, mantendo a convivência familiar rotineira.
Eu não sou íntima e nem me foi pedido conselho, mas quando a gente ouve esse tipo de coisa é impossível não meter o bedelho. Fui um pouquinho além dos "oh", "ah" e "pqp" e ponderei que "aceitar" uma situação é, antes de tudo, tê-la imposta.
Não me venham dizer que a fidelidade do casamento também é uma coisa imposta. Claro que é. Mas o contrato foi aceito, não foi? Se tem uma coisa que aprendi no meu recente e já quase falecido trabalho é que contratos podem ser alterados com aditivos. Mas tem de haver negociação e ser de comum acordo. As partes têm de ceder e investir nos novos termos.
Minha amiga é uma mulher bonita, chegando aos 50, que aparenta pelo menos 10 anos a menos e se esforça pra isso: sofre mais que algumas outras com o avanço da idade, tem uma perspectiva negativa da velhice. Esse é um fator que pode levá-la a aceitar a proposta, pois nunca enfrentou a vida sozinha e nunca pensou em se deparar, a essa altura do campeonato, com a solidão. O marido é mirrado mas tem bom papo e uma caixinha de Viagra no bolso.
Tentei animá-la. Lembrei da Marieta Severo: quando separou do Chico, pensei, pô, coitada, tava no topo da cadeia alimentar e agora ficou sozinha. E taí, linda, absoluta, com namorado (ou marido) gato, nada de gurizinho pra aparecer na Caras, não.
É, eu sei, sou boa de ouvido mas ruim de comentário. Foi o que me ocorreu.
PS - Não sou uma pessoa ciumenta, como já discorri aqui, mas não acredito absolutamente em casamento aberto. Sei que há uma ou duas exceções e não me venham com Simone e Sartre, que esse argumento é batido demais.
quarta-feira, 23 de março de 2011
Não acabou não
Ainda vou continuar a série Europa, passando por Florença e Veneza. Mas antes tenho que ir ali puxar pela memória pra fazer meu currículo.
sexta-feira, 18 de março de 2011
E assim caminha a humanidade
Quarta-feira, no carro, Nina atrás, pensando no que poderia fazer com os R$ 140 que guardou, em moedinhas, no cofre-vaca-que-muge, por 2 anos.
- Posso dar pra você, mamãe, comprar alguma coisa.
- Na verdade, Nina, mamãe vai mesmo precisar de uns trocadinhos daqui a uns dias.
- ?
- Lembra que ano passado a mamãe falou com o chefe que queria deixar o trabalho? E ele não aceitou e quis que eu trabalhasse mais tempo em casa do que lá no escritório?
- Não lembro.
- Mas foi. E agora, passou um tempo, esse tipo de trabalho de longe não deu muito certo, e agora foi decidido que eu não vou mais trabalhar lá.
-Mãe? VOCÊ FOI DEMITIDA???
- ...
E é isso. Mas pelo menos vou ter tempo pra fazer os posts de Florença e Veneza, né.
Ou ainda: pelo menos já conheci Paris. Ufa.
(continua)
Ontem.
- Mamãe, por que no ano passado você quis sair do trabalho? (brava)
- É igual à escola. Imagine que você está numa escola que não te ensina mais nada. Que você está cansada de brincar com as mesmas colegas. Que todo dia é igual, sem nenhuma atividade nova. Você também ia querer mudar de escola.
- Ahn...
- Posso dar pra você, mamãe, comprar alguma coisa.
- Na verdade, Nina, mamãe vai mesmo precisar de uns trocadinhos daqui a uns dias.
- ?
- Lembra que ano passado a mamãe falou com o chefe que queria deixar o trabalho? E ele não aceitou e quis que eu trabalhasse mais tempo em casa do que lá no escritório?
- Não lembro.
- Mas foi. E agora, passou um tempo, esse tipo de trabalho de longe não deu muito certo, e agora foi decidido que eu não vou mais trabalhar lá.
-Mãe? VOCÊ FOI DEMITIDA???
- ...
E é isso. Mas pelo menos vou ter tempo pra fazer os posts de Florença e Veneza, né.
Ou ainda: pelo menos já conheci Paris. Ufa.
(continua)
Ontem.
- Mamãe, por que no ano passado você quis sair do trabalho? (brava)
- É igual à escola. Imagine que você está numa escola que não te ensina mais nada. Que você está cansada de brincar com as mesmas colegas. Que todo dia é igual, sem nenhuma atividade nova. Você também ia querer mudar de escola.
- Ahn...
sexta-feira, 11 de março de 2011
Paradinha
Duas coisas:
1) MADOKA, tudo bem aí? Tremeu perto de você?
2) Descubra O Que Tem de Almoço Hoje? na casa da Bia.
1) MADOKA, tudo bem aí? Tremeu perto de você?
2) Descubra O Que Tem de Almoço Hoje? na casa da Bia.
terça-feira, 1 de março de 2011
Capela Cristina & os vendilhões do templo
Se ressuscitasse hoje, Jesus não poderia expulsar os vendilhões do templo porque eles foram institucionalizados. Lojinha, lojinha, lojinha, em todo canto, por toda parte, com todo tipo de porcariazinha, camisetas, colares, miniaturas, tudo tudo tudo. Particularmente achei chocante que, em pleno Museu do Vaticano*, existam lojinhas internas que atrapalham a vista de algumas obras – como na lindíssima (estou ficando sem novos adjetivos pra tanta grandeza) sala de mapas, ou na de esculturas. Perdi a conta de quantas são, assim como perdi a conta de quantas salas e capelas, aposentos Papais, corredores e mostras – das mais magníficas às mais cafonas – entramos até chegar no Céu da Capela Sistina. Pensando bem, até parece uma alegoria de uma vida católica: primeiro a apreciação resignada dos santos e milagres, o dízimo das comprinhas no caminho, até o milagre da obra-prima de Michelangelo. E eu que não vou pro céu, senhoras e senhores, digo que vale a pena o purgatório.
Sala dos mapas
Mas vamos devagar e por partes. O Museu do Vaticano é maravilhoso, só que repete os pecados (oops) da Basílica de São Pedro: a amontoação que banaliza. Ou eu não tenho capacidade de ver o “todo”. Porque é meio como estar com twitter, blog, dez sites, tv e rádio ligados ao mesmo tempo, too much information (minha vida, aliás). Daí às vezes o bizarro se sobressai, em detrimento de uma obra mal exposta.
Ah, bem, eu não vou adoçar a pílula. Fiquei muito mal humorada de ver tanta coisa amontoada. Amaldiçoei todos os bispos e padres e sei lá quem (freiras não, que elas não apitam em nada mesmo) que acharam ter capacidade de organizar todas as obras acumuladas em séculos de domínio mundial.
Repara na escultura de duas cabeças atrás de mim: uma das cabeças viradas pra trás. Dãr.
O ponto alto antes da Capela Sistina é o quadro dos filósofos, claaaaro. Aquele do Rafael – a Escola de Atenas, com Platão e Aristóteles batendo um papo e vários filósofos em volta, filosofando. Depois que conseguimos driblar um grupo de japoneses, um pouco maior que o habitual, fizemos várias fotos dos filósofos que me acompanhavam com os filósofos-mestres ao fundo.
Placa discreta cobrindo parte da obra - sou implicante?
Pausa pra um fenônomeno: os grupos japoneses (oi Madoka). Já tínhamos reparado, mas aqui o clichê se confirmou. Começamos nossa visita entre dois “bondes” japoneses: um na frente, outro atrás, cerca de 20 turistas, com suas infalíveis máquinas maravilhosas, filmando e fotografando tudo. Tudo não! Só o que é mais importante. Eles vão com as perninhas rápidas tipo a Quadrilha de Morte da Penélope Charmosa, ouvindo a guia, e param exatamente na frente das principais obras, registram e seguem, rapidinho, sem olhar para os lados, para a próxima.
Quando chega no museu – que na verdade são vários reunidos, mas dá no mesmo – você tem duas opções pra chegar à Capela Sistina: a rápida ou a completa. Escolhemos a completa (fui voto vencido). E demora, viu. Você passa por salas maravilhosas e outras absolutamente irrelevantes – a parte de arte contemporânea, por exemplo, me pareceu fraquinha e desnecessária. Chega-se até a enfrentar corredores inúteis. Aposentos humildes de papas – sei.
Daí quando você acha que já viu todas as Marias-dolorosas, crucificações, nascimentos e santos pra todos os males possíveis, chega finalmente ao auge que é a Capela Sistina. E daí somem todas as dores, nas pernas, no saco, porque a coisa é realmente de embasbacar. Mas prepare-se para o torcicolo, porque vale a pena. Ah, e leve um guia para entender tudo que está à sua volta, porque há informações valiosíssimas que não podem passar despercebidas.
Não pode filmar, não pode fotografar. Comprar os cartazes por 20 euros na lojinha da saída, pode.Uma pista aqui.
É – ah se eu tivesse de pagar royalties pra cada vez que usar essa palavra – emocionante ficar embaixo daquela cena clássica de Deus criando o homem, com o dedinho e tal. Mesmo. Mas também é muito legal observar a “moldura” das cenas bíblicas. Michelangelo era um ferrado quando fez a Capela, mas tinha um senso de humor refinado pra pintar figuras observando as cenas, até jocosamente.
Tudo isso deve ser largamente conhecido mas eu, até então, nunca tinha pensado em observar esta obra pessoalmente. Então fiquei muito UAU.
A parte mais legal é o Juízo Final e sobre este eu e Mr. Lopes criamos uma verdadeira tese acadêmica: Michelangelo fez um Jesus alheio ao sofrimento humano, impassível, enquanto pessoas são carregadas para o inferno (um detrator de Michelangelo está representado, no canto, com orelhas de asno). Daí a santa igreja não se agüentou com essa representação e colocou um altar ao pé do Juízo, que é a parede reta, não o teto, com o Cristo oficial, sangrento, sofrido, pra dar uma amenizada. Um altar e um crucifixo que atrapalham a visão da caverna com uns macacos, ao pé do juízo. Enfim, outra das dezenas de equívocos na exposição de obras do Vaticano.
Saí vesga de tanta beleza e ao mesmo tempo saturada de tanto ouro. O Coliseu, passeio feito em seguida, foi um alento.
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
Santos e outros nem tanto
Travei pra continuar contando de Roma. Como se eu não tivesse gostado ou como se algo houvesse ocorrido. E não, mil vezes não. Roma me deixou encantada, a luz de Roma é maravilhosa, e os cheiros, ah os cheiros de Roma, pães, pizzas, salames, fornos a lenha, misturados à fumaça do trânsito. Coisa que adoro é cidade grande. E os sustos de encontrar restos milenares a cada esquina. Descampados com colunas caídas, assim, do nada. Do alto daquelas colinas, quantos séculos nos contemplam? E as pessoas? Homens, mulheres, lindos, arrogantes - sabem que são invejados.
Continuando a caminhada, fomos até o Castelo de Santo Ângelo, logo depois de um almoço com a primeira pizza. Já mencionei que as pizzas são individuais, de 30 cm? E que têm poucos ingredientes, porém os melhores que já provei na vida? Isso em qualquer pizzaria de esquina, mesmo as desprovida de nonnas e mammas. Nunca haverá um prosciutto como o original italiano [drama].
Aprendi que um castelo é praticamente o oposto de um palácio. O Palácio de Versalhes era luxo, poder e sedução; o Castelo é bruto, é proteção, é guerra. Fiz poucas fotos porque minha câmera, nessa altura do campeonato, já estava arriando. Mas sabe um lugar fechado, de pedra, com masmorras, grades, escadas, rampas, tudo bruto, na pedra? Só não tem ponte levadiça. Sufocante, pesado. Era o lugar pra onde os Papas corriam, por um túnel subterrâneo, pra se proteger de possíveis ataques.
Aí você sobe, sobe, e dá de cara com a vista mais maravilhosa de Roma – 360 graus. Foi um dia lindo, de sol, limpo de nuvens, e aquele sol de ladinho, que vai caminhando com você, sem queimar o cocoruto, joga na cidade uma luz que pinta tudo de tons de pastel.
(repara nas árvores de copas arredondadas)
Tem um restaurante no topo desse castelo, onde já foram feitas dezenas de filmes. Seria o programa mais bacana da cidade, sentar lá e beber olhando essa paisagem. Mas não pode sentar sem consumir e gente, a água mineral custava 4 euros. Faz favor. Além disso, tínhamos alguma pressa de seguir pra Basílica de São Pedro (eu, pelo menos, queria “matar” esse compromisso logo).
Ah. Eu meio que passei mal no Castelo de Santo Ângelo. No caminho para descida há um pátio com masmorras. Há restos de um carro de boi usado para transportar comida. Aí, lendo guia e conversando com os companheiros, descubro que ali eram torturadas as mulheres presas pela Inquisição. Que os dominicanos, ordem à qual pertence o Castelo, eram os criadores e executores da Inquisição. Os que mandavam o povo pra fogueira. Ainda fico emocionada de pensar nisso - e o lugar começou a me sufocar de novo. Pedi pra irmos embora logo.
Chegamos à praça e à Basílica, tudo muito imponente. Confesso que até menos do que eu esperava. Até você reparar nos detalhes. As colunas são gigantescas e de 4 em 4 – de longe parece uma coisa só. Os papas e santos esculpidos no alto são absolutamente impressionantes. E estou falando do prédio anexo. Jacuzice típica de católico: um presépio em tamanho humano no meio da praça. Gente, já era 20 de janeiro. Climão. Nem fiz foto.
O que eu esperava da Basílica de São Pedro? Ver a Pietà de Michelangelo, claro. E o teto da Capela Sistina. Primeiro erro: a Capela Sistina fica no Museu do Vaticano, uma boa caminhadinha à direita – que só foi feita no dia seguinte.
Ah, eu queria ver os guardas suíços vestidos de... bem, nestes trajes, também.
Tudo ali na Basílica foi feito pra impressionar. E o papa seguinte quis impressionar mais que o anterior. E o seguinte, um pouco mais. Assim, sucessivamente, até que a Basílica virasse o que é hoje, um amontoado de obras-primas, sem hierarquia entre si, numa demonstração de riqueza que suplanta qualquer tesouro de cinema. A Basílica é over.
A Pietà está quase escondida, no escuro, numa caixa de vidro, à direita da entrada. Mal se pode vê-la. Não dá pra andar em volta dela. Não dá pra chegar perto. Eu, que me acostumei a praticamente cheirar as obras de arte, mal acostumada com o D’Orsay e o Louvre, fiquei indignada. Eu sei, eu sei, eu sei que um doido atacou a escultura anos atrás, quebrando seu nariz, o que fez com que a proteção fosse aumentada. Mas os suíços vestidos de palhaço bem que podiam guardar melhor as esculturas, ficar em frente delas, impedindo outro louco de marreta de chegar perto.
E o que mais tem lá pra se ver? De tudo. Túmulos, túmulos, túmulos. Tem o de uma tal Rainha Cristina, espero que seja a do filme com a Greta Garbo, daonde minha mãe tirou meu nome (e eu não podia deixar de fazer uma foto lá, né). Um papa, declarado santo (Jeromo), transformado em boneco de cera – coisa mais creepy que já vi. Mas há que se respeitar – as pessoas que o visitam acreditam que ele não apodreça justamente porque é santo. Altares, altares, altares, um encobrindo a visão do outro, um mais grandioso que o anterior, é como se houvesse umas 20 igrejas dentro da basílica – nunca imaginei que fosse assim. E todo o mármore do mundo. Não sei como sobrou mármore pras minhas pias de casa.
Gostei? Bem, tem coisas maravilhosas por lá. Não tenho fé, não me emocionei com nada. A emoção mais forte que tive foi frustração de ter a Pietà tão longe. No meu mandato como Papisa, eu desmembraria as obras de arte da Basílica e transformaria em pelo menos 10 exposições itinerantes. E ainda assim a coisa por lá continuaria grandiosa. Mandaria os guardas ficarem mais próximos das obras de arte, em vez de encaixotá-las. Certeza que angariaria mais fiéis, não reduziria o número de turistas e seria reconhecida como Cristina, A Mecenas. E assim finalizo meu momento-santo neste blog. Ops, não, ainda tem a Capela Sistina - a minha interpretação dela.
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