Estava em dúvida entre As Aventuras de Tom Sawyer e As Aventuras de Huckleberry Finn, mas o segundo certamente foi o livro mais importante da minha infância - forçando um pouco essa "infância" até próximo da adolescência, lá pelos 11 anos, quando o li. Tom Sawyer diverte mais, é um danado, um traquinas, quer ser um herói pras meninas e escapar das roupas de domingo. Já Huck é uma criança sofrida, que finge a própria morte para se livrar do pai violento; precisa roubar, mentir, desconfiar de tudo e todos - menos de seu amigo, o escravo fugido Jim. Aí proibiram o livro, recentemente, pelo uso do termo "nigger". A tradução de Monteiro Lobato usa negro, negrão. Chegaram a chamar Mark Twain de racista. Ora, não leram, certamente, essa obra-prima sobre amizade e liberdade. Huck e Jim são tristes vítimas de seu tempo e o livro é uma aventura angustiante e realista sobre crianças fugindo do repressivo mundo adulto.
"Quando cheguei à fazenda tudo era silêncio e quietude. Não se via viva alma. Os escravos mourejavam na lavoura. O sol dardejava e no ar pairava um zumbido de pequeninos insetos voadores emprestando ao ambiente um quê de solidão... A brisa, a agitar de leve a rama do arvoredo, fazia-me tristonho, dando-me a impressão de espíritos dos mortos a murmurarem qualquer coisa de mim. São esses instantes que fazem a gente desejar a morte e mandar o mundo às favas."



