A gente vai mexendo nas coisas antigas e acha esse tipo de coisa. Foto do meu amigo eremita selvagem Iury Bueno, em 1991, durante as apresentações da peça O Rinoceronte, de Ionesco, no Sesc da Esquina. Eu tô com essa pose intelectual mas meu papel era da garçonete que grita "Um rinoceronte!" e é a primeira a virar o bicho.
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
Day 08: Scariest book you’ve ever read
A cena em que Winston e Julia são descobertos e depois, as torturas a que são submetidos (a dela, nunca saberemos, a dele, envolvendo uma armadilha com ratos) e a transformação a partir destes acontecimentos são as cenas mais assustadoras que já li. Passei muito tempo com medo de ver o filme, que é muito bom, mas não transmite, nem de longe, o terror contido de viver sob o Grande Irmão.
Ele puxou-a para baixo, fê-la ajoelhar-se à sua frente.
-Escuta. Quantos mais homens tivestes, mais te quero. Compreendes?-Perfeitamente.-Odeio a pureza, odeio a virtude. Nã quero que exista virtude alguma, em parte nenhuma. Quero que todos sejam corruptos até ossos.-Então eu sirvo, querido. Sou corrupta até os ossos.-Gostas de fazer isto? Não me refiro a mim, somente. Gostas da coisa em si?-Adoro!
Acima de tudo, era o que ele desejava ouvir. Não somente o amor de uma pessoa, mais o instinto animal, o desejo simples, indiscriminado; era a força que faria a derrocada do Partido. Apertou-a contra o chão, esmagando campânulas. Desta vez não houve empecilhos. Dentro de algum instantes, o ofegar do peito de ambos voltou ao normal, e com um agradável torpor, permaneceram imóveis. O sol parecia ter esquentado mais. Ambos tinham sono. Ele puxou o macacão abandonado e cobriu-a um pouco. Quase imediatamente caíram no sono e dormiram cerca de meia hora.
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
Day 07: A book you hated but had to read for school
Fala-se que é um livro pra despertar a consciência ecológica nas crianças. Fui obrigada a ler na sexta série, foi dele minha primeira resenha. São quatro partes contando histórias de personagens diferentes: o sabiá, o cavalo, o peixe, a mangueira. Todos morrem, um a um. Hoje, procurando imagem da capa no google, fiquei COM MEDO de incluí-lo aqui, de tão mal que me fez. Até agora lembro da sensação ruim de ser obrigada a terminar a leitura - e foi a primeira vez que procrastinei uma tarefa até o domingo, perto da hora do Fantástico. Até perdi Os Trapalhões. Mencionei no twitter e achei que estava sendo injusta, pois comentaram da importância de ser um manifesto ecológico e tal. Mas encontrei uns trechos do livro que reforçaram minhas lembranças. E tcharans: do mesmo autor de Meu Pé de Laranja Lima. Aliás, o que pensavam os professores dos anos 70-80? Como alguém pode se animar a ler se o ano começa com Coração de Vidro e avança por A Mão e a Luva? Acho que era uma estratégia militar pra manter a ignorância do povo, mesmo (hahahah brinks, tinha a coleção Vagalume pra equilibrar).
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Super curtinhas...
... e que tuitei, antes.
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Briguei feio com Ninotchka antes da escola. Pelo fato de que não cuida de suas coisas, não as guarda e tal. A primeira mãe das cavernas deve ter se irritado com os ossos fora do lugar. Mas aí fiquei de coração doído o dia todo, por deixá-la na escola depois da briga. Ao anoitecer, ao pegá-la de volta, nos estranhamos mas conversamos normalmente. Ela conta o livro que pegou na biblioteca: "Minha Mãe é um Monstro".
***
Recentemente me dei conta que há muito tempo não escuto música brasileira. Catei uns CDs e levei pro carro dois do Caetano: Totalmente Demais (ao vivo) e Velô. Do primeiro, Nina adorou Vaca Profana - e saiu cantando alto "Teta, teta, eu sou uma vaca de teta", hahahaha. O segundo tem Língua e O Quereres, além de outras menos marcantes, todas muito boas. O Quereres me parece basicamente o que o Lenine gostaria de ser quando crescer (veneninho, mas gosto também de 2 cds do Lenine). Nunca deixei de gostar do Caetano e quero ouvir o que ele tem feito, recentemente - tipo, nestes 15 anos que passei enjoada de MPB. Sinto o mesmo pelo Chico. Mas eles têm uma diferença muito grande, que me ocorreu hoje, ouvindo alto "flor do lácio sambódromo, lusamérica latina em pó": o Chico nunca foi jovem.
***
Agora Nina entra no carro e pede pra ouvir "a música do coqueiro".
Só no carro. Minha casa é super silenciosa.
Day 06: A book by your favorite author
Procurando trechos e imagens para esse extenso meme, tenho me surpreendido no quanto alguns livros dialogam entre si. Claro que há proximidade entre Bukowski e Fante, até porque o primeiro é fã confesso do segundo. Mas Graciliano Ramos está absolutamente distante deles no tempo, espaço e, principalmente, estilo. No entanto, dá voz e pensamentos a personagens parecidos: losers, desacorçoados, sem eira, beira ou qualquer esperança. É meu autor predileto, desde a primeira vez que o li, e será sempre.
Vivo agitado, cheio de terrores, uma tremura nas mãos, que magreceram. As mãos já não são minhas: são mãos de velho, fracas e inúteis. As escoriações das palmas cicatrizaram.
Impossível trabalhar. Dão-me um ofício, um relatório, para datilografar, na repartição. Até dez linhas vou bem. Daí em diante a cara balofa de Julião Tavares aparece em cima do original, e os meus dedos encontram no teclado uma resistência mole de carne gorda. E lá vem o erro. Tento vencer a obsessão, capricho em não usar a borracha. Concluo o trabalho, mas a resma de papel fica muito reduzida.
À noite fecho as portas, sento-me à mesa da sala de jantar, a munheca emperrada, o pensamento vadio longe do artigo que me pediram para o jornal.
Vitória resmunga na cozinha, ratos famintos remexem latas e embrulhos no guarda-comidas, automóveis roncam na rua.
Em duas horas escrevo uma palavra: Marina. Depois, aproveitando letras deste nome, arranjo coisas absurdas: ar, mar, rima, arma, ira, amar. Uns vinte nomes. Quando não consigo formar combinações novas, traço rabiscos que representam uma espada, uma lira, uma cabeça de mulher e outros disparates. Penso em indivíduos e em objetos que não têm relação com os desenhos: processos, orçamentos, o diretor, o secretário, políticos, sujeitos remediados que me desprezam porque sou um pobre-diabo.
Tipos bestas. Ficam dias inteiros fuxicando nos cafés e preguiçando, indecentes. Quando avisto essa cambada, encolho-me, colo-me às paredes como um rato assustado. Como um rato, exatamente. Fujo dos negociantes que soltam gargalhadas enormes, discutem política e putaria.
Não posso pagar o aluguel da casa. Dr. Gouveia aperta-me com bilhetes de cobrança. Bilhetes inúteis, mas dr. Gouveia não compreende isto. Há também o homem da luz, o Moisés das prestações, uma promissória de quinhentos mil-réis, já reformulada. E coisas piores, muito piores.
terça-feira, 23 de agosto de 2011
O Melhor. Caldo Verde. Ever.
Anota e manda bala.
O Melhor Caldo Verde Ever
4 batatas grandes divididas ao meio
3 abobrinhas médias cortadas em pedaços bem grandes
4 linguiças defumadas, das fininhas, cortadas em rodelas
5 folhas de couve, picadas
Cebolinha verde e salsinha a gosto, picadas
1 caldo light de carne (daquele com menos sal)
cebola, alho picados
pimenta em grãos ou tabasco à vontade
Na foto, o que restou (dá pra quatro pessoas, estávamos em duas, ou seja, amanhã tem janta pronta)
O Melhor Caldo Verde Ever
4 batatas grandes divididas ao meio
3 abobrinhas médias cortadas em pedaços bem grandes
4 linguiças defumadas, das fininhas, cortadas em rodelas
5 folhas de couve, picadas
Cebolinha verde e salsinha a gosto, picadas
1 caldo light de carne (daquele com menos sal)
cebola, alho picados
pimenta em grãos ou tabasco à vontade
Refogue no alho e cebola as rodelas de linguiça; adicione as batatas e abobrinhas e o caldo de carne, mexa bem; complete com água (até a metade de uma panela de pressão de 7 litros, mais ou menos). Deixe cozinhar por 10 minutos. Desligue e retire, catando - aí é serviço de preso mas ninguém disse que seria fácil - as batatas e abobrinhas (por isso picamos em pedaços grandes). Coloque-as no liquidificador, com um pouco do caldo, até virar uma papa. Devolva à panela (no fogo baixo) e mexa, incluindo as cebolinhas, salsinha e a couve. Deixe levantar fervura e desligue. Corrija o sal, se for necessário, e adicione a pimenta.
PS - originalmente a receita só leva batatas e couve, a abobrinha é licença poética minha, mesmo.
O Escri das Meninas
Ok, já entendi que vocês não gostam do Bukowski. Então vou mostrar meu escri novo, isto é, o "nosso" escri, porque a Nina já tomou conta. Agora tenho um computador novo e em breve terei uma cadeira ergonomicamente correta; assim, não corro mais risco de travar como se fosse um Windows pirata.
Minha estação de trabalho e meu uniforme pendurado na cadeira da repartição.
A Tigresa e uma Superpoderosa me dão uma força.
Home Sweet Home Office: não é demais ter amigos que te cercam de tanto capricho? <3
Day 05: A book that makes you laugh
Ri muito com Cartas na Rua, o primeiro romance publicado de Charles Bukowski. Mas não foi um riso frouxo. Graças ao seu alter-ego, Henry Chinaski, conheci a América fracassada, pobre, suja, escrota, angustiada, sem saída. Assim, Cartas na Rua é um livro para se rir da desgraça, juntamente com o desgraçado. É como tomar um porre com o amigo fodido, porque é o que nos resta.
O uísque e a cerveja evaporavam de mim, escorriam das axilas, e eu ia andando com minha carga nas costas como se carregasse uma cruz, entregando revistas, entregando milhares de cartas, cambaleando, derretendo debaixo do sol.Alguma mulher gritou:- Carteiro! Carteiro! Essa carta não é daqui!Olhei. Ela estava um quarteirão morro abaixo e eu já estava atrasado.- Olhe, dona, ponha a carta do lado de fora. Nós pegamos amanhã!- Não! Não! Quero que a leve agora!Ela sacudia o troço no ar.- Dona!- Venha buscar! Não é daqui!Oh, meu Deus.Deixei cair o malote. Aí peguei meu quepe e atirei-o na grama. Rolou até a rua. Não liguei; desci em direção à mulher.Desci meio quarteirão e arranquei a droga da carta das suas mãos, aí virei e voltei.Daria um anúncio! Correio de 4ª categoria. Algo como a venda de roupas pela metade do preço.Catei meu quepe e pus na cabeça. Pus o malote de volta no ombro esquerdo e recomecei. 32 graus.Passei por uma casa e uma mulher correu atrás de mim.- Carteiro! Carteiro! Não tem uma carta pra mim?- Dona, se não coloquei uma na sua caixa é porque não tenho.- Mas eu sei que tem uma carta pra mim!- Por que acha que eu tenho?- Porque minha irmã telefonou e disse que ia me escrever.
Anos atrás, demos um exemplar desse livro a um amigo de boteco, carteiro que trabalhava de madrugada. Antes de pegar no serviço ele passava no bar da dona Elza, nossa vizinha, onde também marcávamos ponto ao fim de dias quentes e de trabalho exaustivo. Nosso amigo carteiro bebia religiosamente uma cerveja long neck e uma dose de Steinheger. Não sei se ele gostou do livro.
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
Day 04: The first book that made you cry
Nunca na história desse país um livro me fez chorar. Vários me deixaram emocionadíssima, chocada, triste etc. - assim, poderia citar novamente o livro preferido da infância, ou vários outros que ainda virão nesse meme dos 30 dias. Mas não caíram lagriminhas, não, então estaria trapaceando. Passo.
PS - Por outro lado, também nunca li livros "choráveis" - Meu Pé de Laranja Lima, por exemplo; ou dos mais recentes, Paula, de Isabel Allende, que deixa as pessoas à beira de cortar os pulsos ou ainda A Menina que Roubava Livros.
domingo, 21 de agosto de 2011
Day 03: Favorite book as a child
Estava em dúvida entre As Aventuras de Tom Sawyer e As Aventuras de Huckleberry Finn, mas o segundo certamente foi o livro mais importante da minha infância - forçando um pouco essa "infância" até próximo da adolescência, lá pelos 11 anos, quando o li. Tom Sawyer diverte mais, é um danado, um traquinas, quer ser um herói pras meninas e escapar das roupas de domingo. Já Huck é uma criança sofrida, que finge a própria morte para se livrar do pai violento; precisa roubar, mentir, desconfiar de tudo e todos - menos de seu amigo, o escravo fugido Jim. Aí proibiram o livro, recentemente, pelo uso do termo "nigger". A tradução de Monteiro Lobato usa negro, negrão. Chegaram a chamar Mark Twain de racista. Ora, não leram, certamente, essa obra-prima sobre amizade e liberdade. Huck e Jim são tristes vítimas de seu tempo e o livro é uma aventura angustiante e realista sobre crianças fugindo do repressivo mundo adulto.
"Quando cheguei à fazenda tudo era silêncio e quietude. Não se via viva alma. Os escravos mourejavam na lavoura. O sol dardejava e no ar pairava um zumbido de pequeninos insetos voadores emprestando ao ambiente um quê de solidão... A brisa, a agitar de leve a rama do arvoredo, fazia-me tristonho, dando-me a impressão de espíritos dos mortos a murmurarem qualquer coisa de mim. São esses instantes que fazem a gente desejar a morte e mandar o mundo às favas."
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