O livro era emprestado da biblioteca municipal, trazido por meu pai, ou talvez emprestado por uma tia, sócia do Círculo do Livro, não lembro. Era verão, as férias seriam longas e naquele ano não teríamos praia. Vacas magras, provavelmente. Eu botava uma caixa de som do meu aparelho, presente de 14 anos, pra fora da janela do quarto; ligava num dos lados da fita preferida, gravada dos discos de vinil das primas: 45 minutos de Prince, tlec, tinha que ir lá virar pra mais 45 minutos, agora de Billie Joel. Pegava uma toalha velha, colocava o biquíni antiquado e me lambuzava com algum produto oleoso -podia ser o óleo Johnson's ou azeite mesmo. Ia pros fundos da casa logo após lavar a louça do almoço com um copo cheio de água e gelo. O gramado selvagem estava cortado, mas espetava o corpo. As formigas subiam pelo lombo, daquelas grandonas, pretas, mas só faziam cosquinha. Ouvia risadas de quando em quando: eram os vizinhos crentes que espiavam pelo muro. Deitava com a cabeça estrategicamente debaixo de um pedaço de sombra da poncanzeira gigante. E pegava o livro. Um romance daqueles classicões, com os quais a gente se identifica com o herói-vilão. Tlec, acabava o lado Purple Rain, ia virar a fita de novo, encher o copo com mais gelo, o suor escorrendo pelo corpo azeitado, esturricando de sol e céu azul.
Esse título ia pro dia do filme-que-virou-livro, mas como vou deixar de lado uma lembrança tão boa?
Naquela mesma época, lá pelos 15 anos, assisti na sessão da meia-noite na Globo, hora dos filmes legendados, o filme a que o livro deu origem - A Place in The Sun, com Elizabeth Taylor e Montgomery Clift. Maravilhoso. Depois soube que o mesmo livro foi a inspiração de Janet Clair para a novela Selva de Pedra. Quantas referências, hein. É um livro muito bom, tem uma resenha ótima aqui.







