sábado, 3 de setembro de 2011

Day 16: Favorite book that was made into a movie

O livro


"Fatal" (Elegy), o filme, com Ben Kingsley e Penelope Cruz.


Tantos livros bons foram transformados em filmes bons, médios, péssimos, aviltados ou rigorosamente representados. Vou dar uma roubadinha e citar alguns: não posso deixar de lembrar o quanto o filme A Insustentável Leveza do Ser me fez "entender" os personagens, principalmente Tereza, de forma mais completa - o livro traz o subjetivo, o interior; o filme os coloca em movimento e ação. Pergunte ao Pó, com Colin Farrel, tão bem intencionado quanto mal realizado. E como não lembrar de Lolita: o excelente, de Kubrick, que não teve medo do polêmico, do ridículo e do cruel, e o lamentável, patético, publicitário, romantiquinho e, na minha opinião, ofensivo à obra, Lolita de Adrian Lyne, com Jeremy Irons fazendo um Humbert Humbert vitimizado? Afe.
Tantos títulos. O Morro dos Ventos Uivantes... Orgulho e Preconceito... 1984 (excelente), O Falcão Maltês. Tantos! Mas vou continuar a trapaça e eleger pra esse item um livro cuja adaptação cinematográfica ainda não vi: O Animal Agonizante, de Philip Roth. Um livro narrado por um simpático canalha, o professor David Kepesh, crítico de arte e estrela de um programa de tv, colecionador de conquistas entre suas alunas. Um livro sobre sexo e morte, os dois opostos, como já nos ensinou Blanche Dubois em Um Bonde Chamado Desejo - outro texto, agora de teatro, barbaramente filmado.

Você pode imaginar o que é a velhice? É claro que não. Eu não podia. Nunca consegui. Não fazia ideia do que era. Não tinha nem mesmo uma imagem falsa - não tinha imagem nenhuma. E ninguém quer outra coisa. Ninguém quer encarar a velhice antes de ser obrigado a encará-la. Como é que tudo vai terminar? Em relação a isso, ser obtuso é de rigueur.


Sobre o livro e o filme, indico a leitura do post do Milton Ribeiro.
*Tradução de Paulo Henriques Brito

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Day 15: Favorite holiday book




Eu tinha feito um longo texto que o blogger comeu. Agora infelizmente estou sem tempo, então deixo aqui parte do texto bacana da LP&M sobre minha leitura preferida de férias, os policiais de Raymond Chandler, com seu durão (em vários sentidos) e charmoso Philip Marlowe. E não pense que é literatura rasa, não: Chandler e Dashiell Hammet criaram o detetive e a mulher fatal de todo filme noir. Nosso imaginário coletivo do submundo pós-recessão veio destas páginas, mesmo que você nunca as tenha folheado. E vale muito a pena.

Philip Marlowe, o fascinante detetive de Chandler, figurou em oito romances como protagonista de tramas complicadas, numa época difícil, nos Estados Unidos em plena pós-recessão, um país cheio de incertezas e uma legião de losers andando pelas ruas em busca de um meio para sobreviver. Philip Marlowe, como o detetive Sam Spade, de Hammett, são frutos deste país em crise, onde a construção da futura maior nação capitalista do mundo convivia com hordas de desempregados e aventureiros lutando pela vida. São homens da cidade, habituados a tensões e à violência. Seus clientes seguidamente freqüentam o mesmo círculo social e sua atuação nada tem de “genial” no que diz respeito à sagacidade e à técnica investigativa. Marlowe é um cara durão. Aliás esta tradução de “tough guy” é um achado dos primeiros tradutores de Chandler, Hammett e seus companheiros da literatura noir. E tornou-se comum a todos os romances, sendo quase uma marca registrada do gênero. Os “durões” agüentavam porrada, toda a sorte de enrascadas, mas, no fundo, eram uns sentimentais. E, além disso, conviviam mal com os tiras que estavam sempre no seu pé. Aliás o magnífico O longo adeus, de Chandler – sua obra-prima –, finaliza dizendo que “só os tiras não dizem adeus”. Eles estão sempre lá, às vezes de favor, mas quase sempre prontos para impedir ou prejudicar as investigações privadas. Tiras não gostam de detetives particulares.


Sobre filme noir, leiam este texto da Lu, aqui. Sensacional.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Day 14: A book that reminds you of someone



Mais ou menos na mesma época em que me bronzeava no quintal, um dos meus primos teve um bar, bem botecão. Abria depois do almoço e ficava vazio, praticamente a tarde toda, até começar a movimentação da saída dos operários da Fábrica, depois do apito das 17h30. Como eu não tinha o que fazer, passava as tardes no bar com o primo e um amigo dele, que todo dia também, por falta do que fazer, ia lá dar uma mão, uma varridinha, atendendo alguns fregueses, quebrando o galho por um trocado ou trago (e companhia): o Talento. O Talento tinha esse apelido justamente porque, de acordo com a visão dos meus primos, os caras barra-pesada do bairro, era o que lhe faltava - rapaz tímido, boa gente: não era marginal como os irmãos, porém igualmente não botava comida em casa. Magrelo, falava devagar, baixo, sempre com a mão na frente da boca porque lhe faltavam alguns dentes (nunca vi) - "tá-lento". Mas o Talento gostava de ler. "Tina, olha o que eu tô lendo, vamos trocar, quando você terminar o teu, me empresta". Era um dos poucos assuntos que o levava a conversar comigo. Ele me emprestou o primeiro livro do Woody Allen que li - Que Loucura - e passou uma tarde me falando dos filmes, que eu nem tinha visto ainda (além de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa). Quando minha mãe quis ler também, reparou que o livro tinha marca da Biblioteca Municipal e provavelmente teria sido, digamos, emprestado e não mais devolvido. Sempre lembro dele quando cruzo com os exemplares de W. Allen da minha estante. Aliás, são todos ótimos, divertidíssimos, recomendo muito.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Day 13: A book that reminds you of something/sometime



O livro era emprestado da biblioteca municipal, trazido por meu pai, ou talvez emprestado por uma tia, sócia do Círculo do Livro, não lembro. Era verão, as férias seriam longas e naquele ano não teríamos praia. Vacas magras, provavelmente. Eu botava uma caixa de som do meu aparelho, presente de 14 anos, pra fora da janela do quarto; ligava num dos lados da fita preferida, gravada dos discos de vinil das primas: 45 minutos de Prince, tlec, tinha que ir lá virar pra mais 45 minutos, agora de Billie Joel. Pegava uma toalha velha, colocava o biquíni antiquado e me lambuzava com algum produto oleoso -podia ser o óleo Johnson's ou azeite mesmo. Ia pros fundos da casa logo após lavar a louça do almoço com um copo cheio de água e gelo. O gramado selvagem estava cortado, mas espetava o corpo. As formigas subiam pelo lombo, daquelas grandonas, pretas, mas só faziam cosquinha. Ouvia risadas de quando em quando: eram os vizinhos crentes que espiavam pelo muro. Deitava com a cabeça estrategicamente debaixo de um pedaço de sombra da poncanzeira gigante. E pegava o livro. Um romance daqueles classicões, com os quais a gente se identifica com o herói-vilão. Tlec, acabava o lado Purple Rain, ia virar a fita de novo, encher o copo com mais gelo, o suor escorrendo pelo corpo azeitado, esturricando de sol e céu azul.

Esse título ia pro dia do filme-que-virou-livro, mas como vou deixar de lado uma lembrança tão boa?

Naquela mesma época, lá pelos 15 anos, assisti na sessão da meia-noite na Globo, hora dos filmes legendados, o filme a que o livro deu origem - A Place in The Sun, com Elizabeth Taylor e Montgomery Clift. Maravilhoso. Depois soube que o mesmo livro foi a inspiração de Janet Clair para a novela Selva de Pedra. Quantas referências, hein. É um livro muito bom, tem uma resenha ótima aqui.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Sorrisinho amarelo

Do que você tinha mais vergonha na vida, quando era adolescente? Eu respondo de bate-pronto: de comprar Corega pro meu pai, na farmácia. E pândego que era, ele sempre dava um jeito de me incumbir dessa missão.
Lembrei disso ao ler a notícia do G1: mulher manda fazer dentadura com aparelho, pra parecer mais jovem (e não-desdentada, claro). Beira o surreal. Linkei no twitter, ri muito com as amigas. Mas alguma coisa ficou me martelando dessa notícia. À noite, fui visitar minha mãe, levar o presente de aniversário. Contei a história e ela: "ué, mas você não lembra? A sogra da tua prima fez isso ano retrasado". Ou seja, somos vanguarda, os Lopes.
Minha amiga se assustou quando contei que meu pai usava dentadura. Ah, cidade grande. Essa coisa de arrumar os dentes é tão recente, tem 30-40 anos. Tenho primos com menos de 50 anos que usam dentadura. E não vivem na roça, não. Só perto. É triste, mas a gente ri. Um deles, desempregado, arrancou uns tocos que estavam doendo e foi pedir um dentadura na prefeitura - afinal, político serve pra isso mesmo. Uma assessora mostrou a ele um balaio cheio de dentaduras. Ele que experimentasse uma por uma, até achar uma que servisse. Ele diz que se recusou.
Teve outro primo que, certa vez, trocou a dentadura e demorou a se acostumar com a nova. Foi enviado para outra cidade, para um treinamento do banco. A droga da dentadura apertando. Não teve dúvida: no meio de uma palestra, tirou a miserável e cruzou os braços, guardando-a na mão, debaixo do sovaco. Todo mundo estranhou que ele passasse tanto tempo quieto, sério. Diz-se até que sua concentração impressionou o chefe e ele logo foi promovido.
Outro primo, que trabalhava na Fábrica, por sua vez, estava nessa mesma época de dentadura frouxa e foi para outro treinamento de pessoal, num hotel, como fazem as grandes corporações. Só que era uma reunião de chefias e sabe que nesses casos rola um uísque pesado. Meu primo bebeu muito e acabou vomitando no banheiro. Os colegas o levaram pro quarto, pra passar o porre. Mas quando passou ele se deu conta que estava banguela. Teve que voltar ao banheiro e procurar a dentadura - que estava lá onde foi cuspida. Sorte dele que o pessoal da limpeza não tinha começado o turno ainda. Bem, sorte... quer dizer.

Cresci ouvindo esse tipo de história e comprando Corega na farmácia. Nem preciso dizer o quanto sou neurótica com a higiene bucal.


PS: olha que interessante, nunca vi uma dentadura em copo, eca.

Day 12: Favorite sci-fi book


Que livrinho admirável. Mais um clichê, mas eu tenho essa falha: nunca leio ficção científica. Nem sei o porquê. Gosto muito, acho fundamental, coisa e tal. É uma história que, mesmo você não tendo lido, já topou por aí - num filme, numa outra ficção científica, numa paródia ou mesmo no que a gente teme pelo futuro.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Day 11: Favorite animal book


Pensei em Fazenda-Modelo, do Chico Buarque, mas é uma coisinha ruim. A Revolução dos Bichos, de George Orwell, no qual se "inspira", eu não li. Marley e Eu é da Nina. Então vamos de velho Graça, de novo, porque esse livro é todo da Baleia.

(convenhamos que animal book é uma categoria bem besta)

domingo, 28 de agosto de 2011

Day 10: Favorite classic


São tantos os clássicos geniais e fundamentais, eleger o favorito foi uma dificuldade. Mrs. Dalloway, Servidão Humana, Orgulho e Preconceito, tantos! Mas pô, até Woody Allen concorda comigo: "você poderia pensar que ele o escreveu ontem. É tão moderno e divertido". E cínico, sombrio, zombeteiro. Ainda bem que capa de livro não me assusta - li essa edição que ilustra o post; não é agradável de se ver, convenhamos. Foi um texto que me conquistou do começo...
"Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico com saudosa lembrança estas Memórias Póstumas".
... ao meio
"Não caiu morta; ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da cabeça. Apiedei-me; tomei-a na palma da mão e fui depô-la no peitoril da janela. Era tarde; a infeliz expirou dentro de alguns segundos. Fiquei um pouco aborrecido, incomodado.
— Também por que diabo não era ela azul? disse comigo.
E esta reflexão, — uma das mais profundas que se tem feito, desde a invenção das borboletas, — me consolou do malefício, e me reconciliou comigo mesmo."*

... e ao fim
"Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: — Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria."




*O trecho da borboleta preta

sábado, 27 de agosto de 2011

Day 09: Saddest book you’ve ever read



"A Dor" é o relato da participação de Marguerite Duras na Segunda Guerra Mundial como militante da Resistência e do Partido Comunista Francês. A autora conta sobre seu amor por um prisioneiro num campo de concentração e outras estórias como a da mulher de um prisioneiro que tem um relacionamento com o agente da Gestapo que o prendeu e a da jovem militante que pela primeira vez interroga sob tortura um delator.


Preciso reler, porque ficaram poucas lembranças; as mais marcantes são da personagem que aguarda o fim da guerra e o retorno do marido, sem qualquer esperança de que ele realmente volte. Quando acontece, ele está num estado tão lastimável que se comporta como um animal triste, com uma fome que não pode ser saciada, porque senão adoeceria. A existência dói para todos. O que se salvou, por tudo o que viu e sentiu; a que esteve longe, por ter deixado de amar, por ter vivido um luto, por não ter mais amor.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Quando jovem, eu era japonesa

A gente vai mexendo nas coisas antigas e acha esse tipo de coisa. Foto do meu amigo eremita selvagem Iury Bueno, em 1991, durante as apresentações da peça O Rinoceronte, de Ionesco, no Sesc da Esquina. Eu tô com essa pose intelectual mas meu papel era da garçonete que grita "Um rinoceronte!" e é a primeira a virar o bicho.