sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Uma manhã em Roma

Roma não foi feita num dia. (foram três)
Quem tem boca, vai a Roma. (com euros também se chega lá - muitos)
Em Roma, faça como os romanos. (seja estúpido)
Todos os caminhos levam a Roma. (mas cuidado com a rotatória)
Roma é Amor ao contrário. (às vezes é ódio)

Pois então, como você leu no episódio anterior, chegamos ao aeroporto de Orly com uma ressaca daquelas e amando tanto Paris que, no fundo, nos arrependíamos (eu, pelo menos) de ter incluído a Itália nas férias. Pra deixar Paris, tinha que ser muito bom. E foi difícil sair em todos os sentidos. Fisicamente, eu estava super mal e só queria ar fresco e ficar sentada. Mas tinha fila pra tudo. Uma água custava 3 euros. Na hora de embarcar – fomos de avião porque era mais barato que de trem – passamos por todo aquele esquema de segurança de que já ouvimos falar: bagagens verificadas, tira cinto, separa celular, laptop, líquidos (bisnaguinhas de cremes, porque perfume nem levamos), tudo muito tenso. Daí mais horas na fila do avião, pois os assentos da EasyJet não são marcados e ninguém quer ficar ao lado do banheiro nem na asa. E eu só querendo me encostar.

Eu não sabia: 1) que aviões internacionais servem de free-shop – eles têm revistinhas com produtos sem impostos, mas em euros, o que não é grande vantagem pra nós, brasileiros. 2) que o lanchinho é pago – mas pareceu muito bom, com coisas de uma rede tipo Starbucks 3) que seria tão emocionante sobrevoar os Alpes Suíços.

E aqui eu abro parágrafo, porque merece.
Adoro voar. Adoro sentir o avião chegando lá em cima, no máximo de sua capacidade, depois se ajustando às rotas, acelerando, reduzindo, baixando, taxiando etc. Nosso avião estava indo muito alto mesmo, eu bem mareada, olhando pela janelinha (sempre escolho janelinha), quando surgem logo ali pouco abaixo da canela os Alpes Suíços! Não estava preparada. Uau. Fica tudo muito perto e, pela primeira vez na vida, senti medo e torci pela experiência do comandante. É muito lindo chegar perto dos picos nevados (uia), mesmo tendo assistido mais de três vezes aquele filme sobre a tragédia nos Andes (Alive).

Ok, chegamos a Roma. Já na esteira das malas você percebe o Roman-way-of-life: elas saem de ponta cabeça, meio caindo pelas beiradas, rodinhas tortas, e houve quem se arrependesse de comprar aquele tipo de mala dura, bonitinha, que racha ao ser jogada com força ao chão. Não eu, porque nossas malas, minha e de Mr. Lopes, eram pequenas e simplinhas.

Saímos do aeroporto, encontramos um ônibus tipo de turismo mesmo, confortável, por oito euros cada, pra nos levar à Termini – estação rodoferroviária de Roma, perto de onde ficava nosso hotel. Mr. Lopes comprou baguetes para todos – estávamos sem comer desde a noite anterior, e olha que eu tinha pedido uma frugal omelete, e antes disso, só um muffin no D’Orsay, lembra? Então, verdes de fome. Íamos comer fazendo um bolão se algum grupo de brasileiros reconheceria o pessoal do ex-Los Hermanos que estava fazendo pose sentados na escadaria do aeroporto, tomando um solzinho. Mas fomos chamados pela motorista do ônibus. Primeiro achei super bacana que fosse uma mulher. Mas quando nos instalamos e íamos abocanhar os baguetes, ela gritou que era proibido comer lá dentro. Super grossa.

Já pela periferia de Roma cai a ficha. Circundando casebres e conjuntos habitacionais tipo caixotão, restos de aquedutos milenares, colunas, estátuas, espalhados pela paisagem.

Chegamos. Fora da Termini o barulho do trânsito é ensurdecedor. Comemos os sanduíches (ruins) em pé, ao lado de um semáforo. Carregar malas, mesmo de rodinhas, é um saco. Fico chocada e penso em voltar a pé a Paris quando vejo, ao lado de uma loja qualquer, uma escultura de soldado romano, antiga mesmo, com um monte de sacolas de plástico sujas de restos de comida, enfiados entre os pés. Um motoboy gordão fala alto, com as mãos, com um celular aberto adaptado ao capacete. Roma pode ser feia, suja, malvada. Latina. É nóis.

As ruas de Roma são esquizofrênicas, mudam de traçado e de nome quando bem entendem. Obviamente demoramos a encontrar o hotel. Já eram quase 16h e o sol estava se pondo. Cena engraçadinha do dia: os quatro viajantes numa esquina; dois decidem que devemos subir mais algumas quadras, um que deveríamos descer, e eu olho pra cima, leio a placa e pergunto – gente, não é hotel San Remo? Tá ali. Na cara de todo mundo. Cristina 1 x mapa 0.

Árvores cheias de tangerinas, uma rua cheirosa em Roma.

Finalmente chegamos ao hotel. A recepcionista, uma versão baixinha e enfezada das estátuas encaracoladas e de nariz perfilado, nos trata mal. E me manda raios duplos com o olhar quando pergunto sobre internet no quarto – no hay (ela pensa que no Brasil falamos espanhol). Combinamos sair pra jantar depois de descansar um pouco e tomar banho. Nosso quarto tem banheira e duchinha (ai). Ligo a água, entro debaixo da duchinha, mal e mal pendurada pelo gancho típico europeu, enquanto Mr. Lopes ronca medita. Cinco minutos de banho, olho pra baixo, a banheira está entupida e a água está com uma cor suspeita. Morrendo de nojo, me viro como posso. Vou secar o cabelo, o secador não funciona.

Deixo Mr. Lopes sozinho e desço na esperança de conseguir uma conexão pra falar com a Nina via Skype, e principalmente, pedir providências sobre a banheira. Olho no dicionário: a banheira está entupida = Il bagno è intasato (na verdade, eu devia dizer “la vasca del bagno”). Il bagno è intasato, Il bagno è intasato, Il bagno è intasato. Chego muito decidida à frente da pequena Sofia Loren e mando:

“Il bagno è insalato!”

MA CHE?!

Pano rápido. Ela entendeu, afinal, depois que eu parei de rir (a banheira é uma salada, a tradução) e consegui achar o texto no dicionário. Mas quase me jogou um secador de cabelo novo na cara. Conexão pra skype? Pffff – e eu achei que o hotel era ruim, mas era assim em todo canto. A Itália ainda patina na internet.

Encontramos nossos amigos para o jantar, saímos, já noite fechada e frio, muito frio. Ficamos ali pelos arredores, meio sozinhos, entrando em pequenas lojas ainda abertas, reconhecendo as redondezas, até que fomos abordados por uma linda velhinha de filme italiano, uma nonna! “Querem jantar numa cantina italiana autêntica? Não de coreanos! De italianos, cozinha autêntica, ambiente refinado, prédio antigo”, dizia, em mais ou menos 4 línguas equivocadas diferentes.

Não curti a cara da Nonna e o lugar, duas quadras dali, era cafona. Mas a fome gritou, tinha calefação, a mâitre parecia saber o que fazia. A comida era boa, pena que cada prato individual não alimentaria nem a Nina. Não foi a primeira vez que isso aconteceu: geralmente os cardápios são divididos em “primi piatti”, “secondo piatti”, “entorno” e “insalatti”. Primeiro prato, segundo prato, coisinhas extras tipo porções e saladas. E há restaurante que só valem a pena de se pedir tudo junto, porque as porções são minúsculas. Em outros, um prato só é bem servido: vai da sorte ou da cara-de-pau de olhar os pratos dos clientes já servidos. Assim, um jantar pode sair por mais de 40 euros por pessoa, convenhamos que fica salgado. Ainda não tínhamos descoberto que as pizzas individuais são de 30 cm como as nossas médias.

Lindas vielas.

Dia seguinte

Renovados, com Il bagno consertado, limpinhos, felizes e com frio, fomos finalmente às ruas. E andamos, andamos, andamos. E paramos, paramos, paramos. Em Roma, qualquer canto é histórico. Acontece o tempo todo: vão consertar um cano e pá, encontram um palácio milenar. Daí, aparentemente, sem verba e sem saber muito o que fazer com aquela descoberta mais recente, cercam o negócio e aguardam um patrocínio ou um estudo que desenterre o resto.

Dá até saudade do Niemeyer, curvas retas, saca. Não, mentira.

Fontana di Trevi na sombra, antes do advento da Benetton

Chegamos à Fontana di Trevi. Coisa mais linda. Pena que cheia, lotada, infestada de turistas. Não é uma fonte a ser vista, é um amontoado de turistas a ser ignorado a ponto de se ter uma visão quase mediúnica da fonte. Mas é linda, maravilhosa. Com muita sorte e por ser bem cedo, conseguimos ângulos bons pra registrar.

Olho pra trás e o que vejo? Uma Benetton com 50% de desconto. Nem me animei, não estava lá pra fazer turismo de compras. Mas tinha uma blusa de lã muito linda na vitrine por meros 14 euros. Coisa que aqui seria vendida pelo dobro, uns 100 reais. Me animei, entrei, pedi um minutinho pros meninos. Aí lascou. Tinha casacos lindos por 40 euros. Me joguei: comprei duas blusas e um casaco. Mr. Lopes entrou na dança e, compulsivo por calças, levou 3 de 11 euros. Calças lindas. Os amigos também fizeram compras bacanas, mas nada escandaloso. O chato foi passar o resto do dia carregando sacolas da Benetton.

Passamos por dezenas de pontos turísticos no caminho. A Typewriter, monumento cafona e grandioso onde Mussolini fazia seus discursos e pra onde levou mármore retirado do Coliseu; a Piazza Navona, com a fabulosa Fontana dei Quattro Fiumi, o Pantheon – aqui caiu a ficha de que tudo que vimos em Paris é control c/control v da Roma Antiga. Nem lembro mais o tanto de túmulos de famosos do Pantheon – Rafael, reis e filósofos. Mas o ponto alto deste que seria o “Dia Santo-filosófico” era a igreja Santa Maria Sopra Minerva. Nesta igreja, pertencente à ordem dos dominicanos, Galileu Galilei foi obrigado a abjurar, isto é, a rejeitar tudo o que tinha escrito e dito sobre a terra se mover em torno do sol etc. pra não morrer queimado. Foi BEM emocionante pro Mr. Lopes e pra mim também. Santa Catarina de Siena, uma santa interessante, analfabeta que enfrentou um Papa, está enterrada lá. O frei dominicano e pintor Fra Angelico, do qual vimos obras maravilhosas por toda Roma, também está nesta igreja. Mas ela é impressionante, principalmente, pela beleza do teto azul, incrível, de um azul muito parecido com o do céu da Capela Sistina. E pela luz absolutamente mágica que entra pelos vitrais. Coloquei-me no lugar de um cidadão ignorante, sem jornais, sem internet, sem qualquer contato com o mundo, que ia àquela igreja, séculos atrás, e era levado a crer no Mistério. Seria impossível não ficar fascinado por toda aquela beleza.


Colunas do Pantheon

Coisa chata: muitos monumentos em obras. Fica meio deselegante mas a gente releva.

E por falar em deselegância: sacolas da Benetton por toda parte


A luz inacreditável da igreja de Santa Maria Sopra Minerva, onde Galileu foi humilhado. E a herege fazendo joinha.


Descansinho, que a sacola é pesada.

Acredite, essa é uma igreja pequena pros padrões romanos


Piazza Navona, linda. No verão os restaurantes enchem a praça de mesas e cadeiras.

As lambretas estão por toda parte. De todo tipo. O trânsito tem um zumbido parecido com o das cigarras.
 Outro rio europeu limpo e lindo - o Tevere. *suspiro*

Os irmãos gêmeos de A Rede Social adoram Roma. #brinks


Grandes diferenças entre Paris e Roma. Na primeira você vai aos locais turísticos e encontra franceses trabalhando neles; seu contato com os parisienses é pouco, são observados sempre indo ou voltando do trabalho, indo pra casa (geralmente). Paris é limpa, um grande museu ao ar livre, organizado. Roma é orgânica, como se diz hoje em dia. Você anda pelas ruas misturado aos romanos, que estão indo pra escola, trabalhando, estudando, brigando, dirigindo - até em equipes de reportagem atrás do Berlusconi. Eles convivem com os turistas, sabem que dependem deles, mas os odeiam. Ainda não chegaram à civilidade dos franceses, de aceitar que os novos bárbaros trazem euros fresquinhos e devem ser aceitos e não empalados em praça pública. Até essa metade do dia eu já estava de coração mais leve: deixei Paris com tristeza mas Roma, com seu jeitinho rude, confuso, mal humorado, é encantadora também.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Um breve intervalo...

... porque Roma não foi feita num dia, ora.

*pisc*