quinta-feira, 30 de agosto de 2012

30 de agosto

Há 24 anos, neste exato momento, provavelmente eu estava chorando, desesperada, jogada na cama, pensando que minha vida acabava ali e o quanto era injusto esse destino cruel.

Corta pros fatos. Há 24 anos as professoras da rede pública estadual estavam em greve. No dia 30 de agosto de 1988 o então governador cumpriu uma de suas ameaças e mandou publicar, em retaliação, no maior jornal do Estado, uma lista com 500 grevistas que seriam exoneradas do serviço público. Entre elas estava a minha mãe.

Minha mãe, naquela época, dava aulas de manhã e à tarde; num dos períodos, na escola estadual, no outro, numa escola municipal. Lá ou cá, posso afirmar com todas as letras: era a melhor professora de cada escola, a mais dedicada, aquela que os alunos amavam. Todo seu salário pagava o meu cursinho e eu, que tinha feito (sob protesto) magistério (pra ter uma profissão garantida) estava morando de favor na casa de uma tia, na capital, para estudar para o vestibular da Federal. Para dar o tom da época, digamos que era como o ippon que o Collor prometia contra a inflação: minha única chance. 

Aí, naquele 30 de agosto, a tia me acorda com a lista das demitidas. Dramática, chorei como há muito não fazia – pra mim era como se estivesse escrito no jornal: acabou o dinheiro, volte pra onde não devia ter saído. 

Telefonei pra mãe achando que ela também estivesse desesperada, afinal, era ela quem fazia questão que eu saísse da cidade, entrasse na faculdade, tivesse minha própria vida. Contra a vontade do meu pai, era ela quem me sustentava. E foi a mãe que me tranquilizou: aquela lista era pra aterrorizar as professoras, o sindicato já estava agindo, ia ficar tudo bem. Chegou a rir do meu choro. Explicou que não estava a caminho de Curitiba com as colegas, para protestar contra o Estado, porque tinha a responsabilidade com a escola municipal. 

Só ao final do telefonema me caiu a ficha: 30 de agosto é o aniversário dela. 

Enquanto conversávamos, suas colegas levavam bomba e eram recebidas por policiais a cavalo em frente à sede do governo.

Acho emblemático que o dia do aniversário da minha mãe tenha se tornado o Dia de Luta das professoras da rede estadual. Sempre que a data está chegando, eu penso no quanto ela trabalhou para que eu tivesse o luxo de estudar. 

Parabéns, dona Cida, obrigada.