quarta-feira, 29 de abril de 2009

Isso é grego pra mim


Levei a Nina comigo ao shopping, semana passada, pra deixar uma bolsa no conserto. Zíper. Enfim. Avisada de que não iria comprar, nem ganhar, nada, Ninotchka pediu:

- Vamos na livraria (ela fala levraria) e na loja de brinquedos?

- Só uns minutinhos.

- Então dez minutos na livraria e um minuto na loja de brinquedos.

O diálogo ilustra o quanto ela gosta de livros. É impressionante a vontade que a menina tem de ler. Nem gosta mais de faltar as aulas porque acha que vai perder algo importante e atrasar no aprendizado – eu falo pra ela relaxar, mas é a princesinha da ansiedade.

Deixei-a na seção infantil e fiquei por ali (nunca a perco de vista) ciscando nas prateleiras. De tanto fuçar, acabei encontrando uma daquelas coisas imperdíveis que a gente compra nem que seja pra ficar sem dinheiro pro pão. Ok, exagerei. Nem que seja pra ficar sem dinheiro pro xampu, vai.

É o livro Mitos Gregos, para crianças. Eu adoro mitos - e gregos, rsrs - mas confesso que só sei deles o pouco que assisti em Ulisses, um desses clássicos de sessão da tarde, e no Sítio do Pica-pau Amarelo. Como esquecer o Minotauro?

Levei o livro pra Nina ver, ela não se animou muito. Manipulei: “vamos dar esse livro pro seu pai, que ele vai amar, e vai querer ler tudo pra você, uma história por noite”. E realmente, o marido não agüenta mais ler todas as versões possíveis dos mesmos contos de fadas.

Interessante que a Nina gosta de todas, das mais infantis dos livrinhos com pop-ups, até as mais hardcore – que são as originais, com os pais de João e Maria os abandonando na floresta por falta de comida em casa, por exemplo.

O fato é que ela está gostando dos mitos. Mas eu, eu estou amando. Chego a sonhar com eles. A linguagem é difícil e daqui a pouco vou googlear pra saber que diabo é o tal do Velocino de Ouro, pelo qual Jasão lutou pra recuperar seu trono.

A armadilha pro pai dela não funcionou: a Nina fica muito ansiosa pra ir logo pra cama e como ele demora a chegar, jantar etc. acabo eu mesma lendo (era uma tradição pai-filha, mas fazer o quê). Já lemos o mito de Prometeu e Epimeteu, os deuses encarregados de distribuir os dons aos seres do mundo – e como esqueceram dos pobres humanos, Prometeu roubou um pouco do fogo da roda da biga do deus Hermes para recompensá-los; Zeus ficou furioso porque com fogo até os humanos poderiam chegar a desafiar os deuses; daí o castigou àquela coisa horrível de passar a eternidade preso a uma rocha, com uma águia comendo seu fígado diariamente. Passamos meio batido nessa parte. Epimeteu ficou sozinho e exigiu a presença de uma mulher; os deuses criaram então a Pandora, que abriu a caixa – ahá! – onde estavam guardados os males do mundo.

O deus Hades, que é o senhor dos mortos, é um ser mau e divertido no desenho Hércules (recomendo demais pra crianças e adultos, divertidíssimo), mas a história de amor dele pela filha da deusa da colheita (esqueci qual), Perséfone, é maravilhosa. E explica as quatro estações – Perséfone passa seis meses por ano com a mãe, que fica feliz e ocorrem então Primavera e Verão, e seis meses com o marido, nas profundezas do inferno, então são os seis meses de frio, em que sua mãe se recolhe, triste.

Nina ficou impressionadíssima. Ao final, perguntei – e agora, que estamos debaixo do cobertor, Perséfone está com a mãe ou com o marido? Ela respondeu, “mas é história, mamãe”.

Já passamos também pelas histórias do rei Midas e do escultor Pigmalião, apaixonado por uma estátua, a Galatéia. Adoráveis. Mas a Nina gostou mesmo da triste história de Eco, a ninfa tagarela. Acho que se identificou, além de ter gostado do desenho. Eco falava tanto que um dia incomodou a deusa Hera, mulher de Zeus, e foi condenada a repetir os finais das frases das outras pessoas. Eco se escondeu na floresta e se apaixonou pelo lindo Narciso. Ele também se irritou com Eco, pois não conseguia conversar, e a tratou mau. Eco morreu de tristeza e só sobrou sua voz. Narciso foi castigado por outra deusa, amiga de Eco, e se afogou enfeitiçado pelo reflexo de sua própria beleza.

Ontem contei o mito de Jasão, que tem a figura feminista interessantíssima de Medéia.O próximo mito será o do Minotauro. Estou louca pra chegar a hora de dormir.





PS: o momento de leitura é interrompido às quintas, quando é noite de outro deus grego.

10 comentários:

Dagwood disse...

Como este foi um post família, pouparei os comentários jocosos desta vez (não seriam poucos, rs).

Para baratear sua vida, procure os livros pra Nina na Estante Virtual. É tipo um sebo online em que vc compra toda sorte de livros. Nós já compramos trocentos - hoje mesmo chegou um novo para o filhote. Esse que postou é novo, então, não está tão barato (R$42), mas vc encontra pérolas por um precinho ótimo. Vale a pena.

Ah, o nome da Deusa da Colheita é Deméter. Ou Ceres, para os Romanos.

Tina Lopes disse...

Pô, Dag, nunca me poupe dos jocosos, vivo deles. E tks pela dica.

Patricia Scarpin disse...

Tina, pois eu fiquei ansiosa para você postar mais sobre isso - acho que vou comprar o livrinho, mesmo não tendo um pequenino para quem ler as histórias. :)

Quando estava no primeiro ano da faculdade (não tinha Internet, nem Google), íamos pesquisar para os trabalhos nas bibliotecas (muitas vezes a do Centro Cultural Vergueiro). Meu melhor amigo na época - fazíamos os trabalhos sempre em dupla - ficava p... comigo, pois nos separávamos para pesquisar os livros e eu sumia... Daí ele me encontrava absorta na parte de mitologia grega, sentada no chão, lendo - o que não tinha nada a ver com a pesquisa... :D

Tina Lopes disse...

Pati, o livro é ótimo, é pra público infantil mas não é infantilizado, sabe? Mitologia é demais. Assista Hércules também.

Rubão disse...

Que bacana, Tina. Quando criança, li uma historinha do Carl Barks - o criador do Tio Patinhas - sobre o velocino de ouro, o dragão que vela o tal velocino e nunca dorme, harpias, Jasão e os Argonautas. Jamais a esqueci.

Tina Lopes disse...

Eita, Rubão, eu tinha esse Almanaque Disney. Era louca por ele.

Rubão disse...

Jóia, mas acho que cê tá procurando em outro lugar. Essas histórias, em geral, eram publicadas no Disney Especial - uma revistona, mais grossa, com uma história do Carl no início e/ou no fim da ediçao. O Almanaque Disney era uma revista de mais recheio que as demais e menos que as Disney Especial. Estas eram coletâneas de histórias ligadas por algum tema específico. Tipo: Vizinhos; Piratas; Inventores; Aventureiros; por aí vai.

E, se bem me lembro e o google já não liquidou suas dúvidas, o velocino era lã dourada de um carneiro: Patinhas e sobrinhos o puseram sobre os olhos do dragão que nunca dormia para fazer o bicho roncar e escapar daquele refúgio na Cólquida.

Afe, fim da sessão nerd.

iilógico disse...

muito, muito bom.
lembrei que tenho que ler para meus pequetitos. eles já lêem sozinhos, mas a carinha que fazem quando eu leio...
adorei seu jeito de dizer.

Flá disse...

Meu pai lia pra mim mitologia egípcia, qndo eu era pequena...E eu era (opa,ainda sou!) tão apaixonada por leitura qnto a sua filha! Esse seu post deu uma nostalgia!!Mto lindo!=)


(aliás,nem reparei bem como acabei nesse blog,mas digo que já achei o máximo!Tá favoritado,com certeza!)

Bjos

Vivianne Pontes disse...

Já viu o livro das Princesas Desaparecidas ou Esquecidas? É lindo de doer. Uma amostra escaneada: http://decoeuracao.blogspot.com/2009/04/tweet.html