quarta-feira, 24 de junho de 2009

João Batista



Nasceu em 24 de junho de 1944, por isso ganhou o nome de João Batista.
Aos 16, fugiu de casa com um circo-teatro.
Tocava violão e fazia comédia.
Com mais de 20 anos, gostou de uma certa cidade e lá ficou. Arrumou emprego na fábrica. Casou.
Só as irmãs e a mãe o chamavam de João - Joãozinho, por ser o mais novo. Na vida adulta ficou conhecido pelo sobrenome: Cassiano.
Fez o 2º grau depois, no curso noturno, supletivo. Levava o violão pras aulas.
Dizia que era fã de Cassiano Ricardo e que por isso queria ter um filho pra chamar de Ricardo Cassiano. Teve duas filhas.
Chorava se visse criança sofrendo. Enquanto eu era criança, só me fez rir. E alertava:
Menina bonita,
da perna grossa,
vestido curto
papai não gosta.
Tinha duas costelas quebradas, pisoteadas por um cavalo, lembrança dolorida da infância na roça. Mesmo assim adorava cavalos. Cachorros e gatos também.
Era campeão de sinuca. Chamava o bar de Clube. Bebia só pinga e não chamava nunca de cachaça.
Corinthiano. Roxo. Na final de 76 não deixou o melhor amigo entrar em casa pra ver um jogo: acreditava que fosse pé-frio. Eu lembro.
Fumava Continental sem filtro. Anos depois, Luxor. Só os mais baratos e mais fortes.
Desenhava bem, muito bem. Uma vez fez caricaturas de todos os colegas do trabalho, imitando os personagens dos gibis do Tio Patinhas. Ele era o João-Bafo-de-Onça.
Virou chefe dos amigos e tinha vergonha de mandar. Uma vez me levou pra ver o computador que ocupava a sala toda do escritório da fábrica.
Tinha medo de viajar de avião mas quando era obrigado, a trabalho, trazia as bolachinhas, geléias e talheres de plástico na mala, como presentes.
Achava que podia avaliar as pessoas pelo aperto de mão. Olhava firme nos olhos.
Gostava de faroeste e Dirty Harry.
Hoje faria 65 mas já se foi, muito antes, aos 53.
Se ainda fosse vivo, viveria só pelos netos, Nina e Ricardinho.
Se ainda fosse vivo, teria dado tempo de contar: agora te entendo.
Mas quando a Nina pergunta dele, digo - que remédio - que está no céu, encontrou o vô Neno e o nosso cachorro PB. E que eles ficam por lá conversando sobre ela.

20 comentários:

sandra disse...

que lindo Tina...tenho certesa que de"lá" ele chorou ao ler essa descrição cheia de amor...parabéns pra ele.
bj

Patricia Scarpin disse...

Ai, Tina, que post bonito.
Meu pai também se chama João (assim como o meu irmão e meu marido). Me deu saudade de todo mundo agora.

Priscilla disse...

Tina, que bonita homenagem ao seu pai. Muito legal seu pai. Meu pai quase se foi nos últimos meses, e ele ainda não conhecia meu filho, que hoje tem 5 meses. Fui prá casa dele e lá fiquei 2 meses e 1/2, aproveitando para que ele e o neto pudessem se conhecer e se amar. Abraço.

Claudia disse...

Aiai, triste, triste, Tina. Só entendemos nossos pais quando viramos pais, né? Eu tenho a sorte de tê-los aqui, convivendo com a Júlia.
bjos

Anônimo disse...

Que texto mais bonito, Tina. Lindo que você consiga expressar o amor que sente pelo seu pai. Emocionante. Beijinhos na Nina, vestida de São Joao por estes dias? Te amo muito, La Mamacita

nilus queri disse...

Dignidade é uma coisa linda. E o E. vai ficar a cara dele!

Jan disse...

de chorar. :ó)

Rubão disse...

Grande JB.

Srta.T disse...

Que texto bacana, Tina. Como devia ser bacana o senhor seu pai.
Beijo

Cris Brunetti disse...

lindo texto tina, meus olhos se encheram de lagrimas e agora estou tentando disfarçar, juro que não estou brincando.
foi uma bela homenagem a um pai que me pareceu muito carinhoso.
todos os dias dou graças a deus por ter o meu paizinho ao meu lado todos os dias.
pronto agora to chorando de verdade.
um gd bju

Cinthya Rachel disse...

lindo, lindo. ele comemora com vc;)

Anônimo disse...

Nem sei o que falar. Também perdi meu pai há 3 anos atrás, ia completar 80 anos. O seu foi muito cedo. Emocionou geral aqui.
Que fofo era João Bastista, além de ser corinthiano, tinha vergonha de mandar, isso já me ganhou. Ah, eu também tenho isso de achar que pelo aperto de mão, o aperto diz muito mais que um beijo, no caso pra avaliar o tipo sabe? tem cada aperto mole, suada hehehehehe...
Linda homenagem
madoka

cris disse...

não faz isso, tina. já chorei tanto hoje e sem motivo nenhum. comecei a chorar no trabalho e tive que vir pra casa. agora leio isso e meu peito apertou de novo. lindo.

Tina Lopes disse...

Sandra, Pati: obrigadinhas.

Priscilla: que coisa mais bonita vc fez.

Clau, devia ser sempre assim.

Mamacita! Vc por aqui! Obrigada e bjk.

Nilus, tá doido! Freud demais pra minha cabeça.

Jan, Rubáo, T., Cin: obrigadinhas.

Cris Bru, ah, que é isso, fica feliz.

Madoka, pois é, foi cedo demais, ele tava doente e eu morava longe, nem me toquei que isso podia acontecer. Bem. Uma vez ele apertou a máo de um amigo que eu adorava e declarou depois: máo de banana, hahahaha, eu fiquei indignada mas no fundo sabia que o cara era um bananáo mesmo.

Cris! Pois é, tem dia que náo dá pra olhar pro lado. Ontem foi um desses. Toda hora segurando (sijoguei num doce-de-leite). Bjk.

cris disse...

por isso que eu evito ter doce de leite em casa. porque se duvidar eu como o pote todo. mas ontem tinha aquele biscoito de vaquinha [aquele de leite maltado, sabe?] e eu sijoguei assim mesmo. tem dia que não dá, amiga.

Lolló disse...

Coisa linda, linda!
Chorei baixinho aqui.

Um beijo, Tina!

Anônimo disse...

também entendo ele hoje. muito bonito.bem escrito. beijo, tua irmã

Ronise Vilela disse...

(um riso mudo)
(um abraço invisível)
...
e olhos marejados

Lu disse...

papi aventureiro. :) parabéns pra ele esteja onde estiver. beijo

Bibi Ribeiro Werner disse...

Lindo lindo!