terça-feira, 18 de agosto de 2009

Artistas na vizinhança

Um toquinho num cantinho será um banquinho? (não me venham com violão)

O toco de tomar sol. Ou chuva.

Quando mudei pra uma casa, a primeira desde que saí do interior, morria de medo de pegar uns vizinhos muito loucos. Porque de apartamento a gente muda, reclama pro síndico (quando o síndico é o doido não adianta muito), dá um jeito. Já em casa, se o vizinho é um Silva, danou-se. No nosso último apartamento tínhamos um maníaco no térreo, professor de yoga (!), que torturou uma família por causa do barulho de passos de uma criança ao ponto de eles deixarem seu próprio apartamento para morar de aluguel em outro prédio. Tinha outro que bebia até cair na escada em frente à nossa porta, porque não conseguia vencer mais dez degraus. E ele falava espanhol quando bebia, coisa mais divertida. Apelidei-o (eu e minha criatividade incontida) de Cheiroso, porque no dia seguinte dos porres ele tomava um banhão de hidromassagem (nossas paredes tremiam com o motor, por isso eu sei) e saía pro sol, cheirando sabonete barato - fazendo de conta que não era com ele. E ainda tinha a porca que fumava na janela e jogava as bitucas na calçada, de preferência na cabeça de quem passasse embaixo. O síndico crente e ladrão, cuja primeira medida foi arrancar as lindas floreiras com violetas do prédio porque "a manutenção era muito cara".

Enfim, certamente todo mundo que me lê tem histórias piores.

Daí que mudamos pra nossa casa e fomos sorteados com os melhores vizinhos do mundo. Bem, dentro do padrão curitibano: se houver assalto ou briga não espere alguém se intrometer. De um lado, temos um grande pianista de jazz, o Seu G. Um senhor quieto, discreto, que oferece uns saraus aos amigos de vez em quando. Nessas ocasiões - acho que já contei aqui - ele faz coisas fofas tipo colocar velas em cada degrau de sua calçada, iluminando o caminho para as visitas, que por sua vez trazem sax, violino. Ficamos eu e o marido na nossa humilde salinha, bebendo nosso vinhozinho, ouvindo a música de alta qualidade que entra pela nossa garagem.

A casa da frente é uma ironia à parte. Pertence a um famoso arquiteto da cidade, responsável pelo projeto da universidade onde o marido trabalha. Acontece que a casa do Arquiteto tem, por fora, claro, os mesmos detalhes de construção que caracterizam a universidade: uns janelões com uns troços de concreto pra rebater o sol e a pintura nas cores primárias. Então o marido põe o nariz pra fora de casa e se depara com seu mini-trampo. Mas os moradores são ótimos, simpáticos, discretos etc. De vez em quando dão umas festas de arromba também. Daquelas citadas nas colunas sociais no dia seguinte. Veja como a vida é uma festa na nossa pequena quadra do São Lourenço.

Ao lado do Arquiteto moram os Alemães. Uma família também muito simpática mas que custa a se livrar da saudade da terra amada. Na fachada da casa estilo colonial tem uma bandeira da Alemanha e uma do Brasil. Têm uns cachorrões e para chegar em casa, ligam antes, dão a volta de carro na quadra e só abrem os portões depois que verificam que a barra está limpa. São meio neuróticos, sei lá, cada um na sua. Mas a cada deles realmente parece um bunker.

E do nosso outro lado (não me perguntem de direita ou esquerda, tenho dislexia de GPS) estão os novos vizinhos - isto é, faz um ano e meio que eles mudaram pra cá. Ficamos amigos: eles têm duas crianças, um menino de 10 anos e uma menina um ano mais velha que a Nina. Ficaram amiguinhas, apesar de se estressarem de vez em quando uma com a outra. É sobre eles que quero contar. Sabe gente bacana? Calmos, simpáticos, com todas as qualidades que se espera das pessoas, tipo amizade, solidariedade etc. O Vizinho Bacana fica em casa o dia todo porque seu trabalho é acadêmico, acabou recentemente um doutorado. Então ele pode se dar ao luxo de ter hobbies. Um deles é o de catar madeira pelo bairro. É uma questão ecológica. Enquanto nós compramos três metros cúbicos de madeira pra queimar na nossa lareira, ele anda pelo bairro com seus 3 cachorros (dois dos quais ele pegou na rua, abandonados) e encontra árvores caídas, derrubadas pelas chuvas ou pela Prefeitura, por ameaçarem as casas ou fios de luz etc. E tem muita árvore por aí. Felizmente moramos num bairro super verde.

Bem, mas chega uma hora que o Vizinho Bacana não tinha mais o que fazer com tanto pedaço de pau. Juntou madeira pra um forno industrial de pizza pro ano todo. E começou a fazer "arte". Daí o Marido aqui entrou em férias. Pronto. Semana passada cheguei em casa e o Marido queria me mostrar os móveis pra churrasqueira que os dois fizeram. Uma mesa e cinco bancos. A mesa: um tocão. Os bancos: cinco toquinhos. Perguntei se ia demorar pra completar o pacote pros Sete Anões e ele ficou meio chateado. Passou o dia inteiro lixando os tocos, pô! Mas aos poucos acho que caiu a ficha. Digamos que nossos convidados pros churrascos não devem curtir muito ficar quase acocorados nos tocos. A cena não seria das mais bonitas. Então agora temos vários tocos de madeira espalhados pela casa. Uns pra sentar ao sol, outros pra botar planta em cima (e só me falta agora um xaxim pra completar o cenário).
Agora as fotos fizeram sentido, né?

9 comentários:

Rubão disse...

Sugestões:
- Se empilhar dois não dá um banquinho?
- Peça ao Marido e Vizinho para soltarem uma estátua no capricho e faça do banco um pedestal.
- Brinque de corridinha de velotrol com a Nina e faça dos cinco bancos um pódio.

Abraço,
r

asnalfa disse...

Kkkkkkkkkkkkk
Ai Tina... sua casa é uma delicia de se viver, adoro casa com quintal verde e grande! Alem disso seus atuais vizinhso sao uns amores.
Mas acho que fui abencoado pelo capeta. Minhas vizinhas sao tudo ... sabe aquilo. Nao sabem de quem é pai dos filhos delas. Um horror. Vizinhos que escutem axé no final de semana. Melhor parar por aqui.

Anônimo disse...

Antes de se mudar, seja casa ou apê, ou comprar terreno, 1a. providência é saber quem serão os vizinhos, evitar problemão futuro. Eu já aprendi. E sorte vc morar num bairro que só tem gente civilizada. Aqui é uma maravilha, o lema é não perturbe os ´outros´. É um silêncio impressionante, as vezes até cansa.
bjs
madoka

Anne disse...

Adorei os banquinhos, sabia? Achei charmoso.
Tenho um vizinho que virou cliente e o querido veio bater à minha porta exatamente às 22 horas para saber do andamento do processo. Que ódio! Pela cara que fiz, acho que não irá se repetir.
=^.^=

Patricia Scarpin disse...

Tina, você deu um toco no marido por causa dos tocos. (ah, que horror esse trocadilho, Mas não resisti). :D

Quando casamos, moramos de aluguel e a vizinha de cima era uma fdp. Andava de salto alto 24 horas por dia, especialmente de madrugada, e tinha brigas horríveis com o namorado, às vezes por telefone, às vezes ao vivo e em cores, até umas 4 da manhã. Reclamamos muito, mas o idiota do síndico nunca fez nada.

Hoje temos vizinho de porta que tem criança pequena e eu só soube pq os vi no corredor, chegando com as compras. Não ouvimos um pio sequer.

Suzana Elvas disse...

"Perguntei se ia demorar pra completar o pacote pros Sete Anões e ele ficou meio chateado."

Tô com asma. E a culpa é sua.

Tina Lopes disse...

Rubão, a Nina vai adorar o pódio. Outro dia ela me perguntou por que o número 1 é o mais importante.

Asn, minha casa é boa demais mesmo. E meus bons vizinhos são exceção mundial, acho. Impressionante minha sorte.

Madoka, a impressão q eu tenho do Japão é essa, a de um silêncio total, com exceção de Tóquio, claro.

Pati, heheheheh, ri feito o Beavis com o seu trocadilho. hehehehe

Anne, Anne, vc foi picada pela mosca do charme rústico? E cliente às dez, credo.

Su, eu já tenho uma parede de pedra na sala que me lembra a caverna dos 7 Anões, é uma imagem recorrente, essa. =)

Michele disse...

Aiaiai Tina, só vc prá me fazer rir numa rir dessas... obrigada e um bj!

Carolina disse...

Não consigo parar de rir só de imaginar a cena tocão + toquinhos = móveis pra churrasqueira.