terça-feira, 9 de março de 2010

O cantinho das mães - tragicomédia em 3 atos

Ato 1

Cenário: festa infantil em Buffet/ mesa onde foram colocadas as “mães das amigas da escolinha”. Cerca de 8 mães conversam sobre dietas e sobre a rotina da escola.

Nina surge correndo à mesa, pedindo água para continuar correndo enlouquecidamente com as amigas. Uma das mães brinca:

- Seu namoradinho não veio?

Nina responde:

- Ah, os meninos são chatos, eu não tenho mais namoradinho... ele saiu da escola.

E sai correndo.

Uma segunda mãe discorre sobre o tema:

- Sabe, eu não deixava a Lindinha (filha dela) falar que tem namorado.

Cristina:

- q?

A mãe da Lindinha:

- É que o pai dela não suporta ouvir que ela tem namorado, dá bronca. Mas agora estamos mudando isso. Porque outro dia eu vi na rua um casal de MENINAS (ênfase) se beijando! Então meu raciocínio é o seguinte: é melhor que ela pense em crescer e ter um NAMORADO.

Cristina:

- (ÊNFASE) Ah, você viu um casal de namoradas? QUE BACANA NÉ? Porque no nosso tempo as meninas que gostam de meninas nem se davam conta, tinham que passar uma vida miserável dentro do armário. ACHO UMA CONQUISTA DO MOVIMENTO FEMINISTA ver tantos casais gays por aí. Claro que na verdade eu não acho legal ver adolescente se agarrando, dá uma vergonha alheia. MAS ELES AINDA NÃO TÊM DINHEIRO PRA MOTEL e a gente tem que entender.



ATO 2

Mães discorrem sobre escolas para as quais pretendem transferir seus filhos no próximo ano, quando iniciarão a 1ª série do Primário.

Mãe 2

- Eu estou pensando em colocar minha filha no Colégio Militar porque o que ela precisa é DISCIPLINA! Ter horário rígido, incentivo ao estudo.

Cristina:

- NÃO FAÇA ISSO!!! Meus colegas mais rebeldes e malucos da universidade, TODOS, passaram por colégio militar ou exército.



ATO 3

Cenário: Sala de espera da escola de natação – cerca de meia dúzia de mães assistem à aula dos filhos, através de uma vidraça com vista para as piscinas.

Mãe 1

- Olha como minha filha está feliz. Que amor. Eu sabia que natação ia ser uma boa pra ela.

Cristina

- Ah, elas adoram né? A Nina está animadíssima em aprender a nadar e eu acho ótimo porque é uma segurança também...

Mãe 1

-Na verdade a minha filha queria fazer balé. O SONHO DELA É SER BAILARINA. Mas O PAI DELA JÁ DISSE: VOCÊ NUNCA VAI SER BAILARINA!

Cristina

- q????

Mãe 1

- É que a minha filha tem o quadril travado como o meu. Não pode virar, nem mexer pro lado. É congênito. Fomos ao MELHOR ortopedista da cidade, segundo o meu MARIDO, e o médico disse que ela tem que fazer exercícios porque ainda pode acabar na cadeira de rodas. Imagina, eu nunca deixei de fazer nada.

Cristina

- Nossa, que horror, tem que ir em outro médico, onde já se viu um prognóstico tão negativo, tão cedo?

Mãe 1

- Pois é, mas meu marido não quer outro e briga com ela porque é gordinha e passa o dia todo comendo besteira. Já falou pra ela que se viver sentada comendo, VAI ACABAR NUMA CADEIRA DE RODAS.




Nota para a produção: o elenco infantil tem no máximo 5 anos.

16 comentários:

luci disse...

poxa, que legal! "filha, você vai ficar o resto na vida na cadeira de rodas se... comer". eu sempre sonhei em ter um pai assim. que inveja.

moi, eu passei por colégio de freira e de padre. e por mais que eu pense que eu (nem sempre) não tive uma vida louca e agitada a base de sexo, drogas e rock, 2min de conversa com minha mãe já deixaria ela de cabelo em pé e eu teria um fim meio "bicho de sete cabeças". então, cara, tem certeza que vai colocar sua filha num colégio militar?

não entendo. sério. :/

Rita disse...

Hahahahahaha!!!! Adorei o primeiro ato! Clap clap clap, Tina, muito bom!

Ato 2: hehehe, ô, maldade...

Ato 3: depois a gente não sabe porque o mundo é do jeito que é, né não? Aff...

Beijinhos (pra vc e pra Nina)

Josianne disse...

Por isso que quase nunca vou a festas de amigos da escolinha.

Ronise Vilela disse...

Tina, agora você entendeu o que eu passei na reunião...
Sobre casal de meninas se beijando, até fiz post sobre assunto, e embora não seja uma pessoa preconceituosa sobre preferências sexuais, acho mesmo que as meninas estão mais praticando "moda" do que propriamente "descoberta sexual", salvo alguns casos, que duvideodó sejam do modo escancaramento público.
Namoradinhos nessa idade, e quem não teve? na minha época, era quando achava o menino mais bonito. No meu caso era Rodrigo, nunca esqueci.E olha,eu tinha 5 anos!!!!!
Agora o caso de cadeira de rodas, aho que quem precisa de um médico é o pai, e psiquiatra. Urgente!

Tina Lopes disse...

Luci, imagina só. Colégio militar, disciplina. Onde estamos? Remake de Sociedade dos Poetas Mortos?

Rita, obrigadinha, quando eu decido chutar o balde, sai da frente, hehehe.

Jô, eu vou porque a Nina não tem com quem brincar fora o primo, né? Dá peninha, elas planejam a semana toda. Bem, se existir céu inferno etc, pelo menos uma vaga no purgatório eu devo garantir.

Rô, da sua reunião, eu só estranhei o vídeo - espero que não passem na minha reunião, que é semana que vem... quanto às meninas se agarrando, eu sou radical, acho ótimo, se for moda tudo bem. Que UMA menina se identifique gay e não se obrigue a passar a vida no armário, já tá valendo. E como eu disse, adolescente se agarrando é sempre uó, seja de que sexo for. "Get a room!"

Caminhante disse...

/o\

Não dá um certo desespero?

Raiza disse...

Medo dessas mães (de desse pai).

tamarafreire disse...

Incrível como o seu texto agora casou com uma discussão que eu tive com a minha irmã e a minha mãe sobre a necessidade das mulheres terem modos. Um mafuá daqueles porque eu não abro mão de assistir televisão à noite, na minha casa, de pijama, só porque o namorado da minha irmã está aí. Enfim, não vou me alongar que esse nem é o assunto. O que eu quero dizer é que nas tantas da discussão, minha irmã surgiu com a pérola do senso-comum: "Mas o mundo não é do jeito que você acha certo". Bom e não vai ser nunca né, se eu abrir mão do que eu acho. Isso me faz pensar e os seus atos também, em como as coisas passam pra frente sem qualquer questionamento de validade, especialmente na relação pais e filhos. O quanto a gente não ensina, porque aprendeu assim e não se questiona se aprendeu da melhor forma. Como essas mães, que parecem tanto reproduzir sem fazer juízo algum. Reproduzir o senso-comum heteronormativo. Reproduzir o conceito envelhecido de que educação tem a ver com a rigidez. Reproduzir o que o marido pensa, porque é o marido. O pior é que isso é reproduzido nessas mentezinhas em formação, que sabe Deus se terão chance de se desvencilhar disso algum dia. Pelo menos, apesar do sacrilégio, você está aí sacudindo as coisas né.

Amanda disse...

Assim eu perco fé na humanidade... Que mães doidas! E que pai maluco! Acho que pra contrabalancear você deveria fazer uma outra peça em três atos com mães muito bacanas, pra gente não ficar achando que tudo esta perdido! Ou esta?

Haline disse...

Nossa, Tina, como ce aguenta? Ainda bem q é só de vez em qdo né. rs A Nina deve ser completamente diferente deles.

nilus queri disse...

cri, my dear, i love you so much for all that. e comecei a ler um livro curtinho(meio chato e mal escrito, mas sobre assunto interessantíssimo) sobre mulheres que são apaixonadas por serial killers e criminosos sexuais. várias delas têm esse histórico de um pai idiota como esse que você citou. pais (homens e mulheres) se esquecem de que filho é criado para o futuro e de que tudo o que acontece no agora se refletirá de alguma forma después. Portanto, uma vez decidido ter a criança, cuidado com a falta de paciência, com a preguiça em educar e com a falta de generosidade e de exemplos de cidadania. num é? but in you, i trust, dear friend!!!

Cinthya Rachel disse...

titina, eu sempre achei que tem gente que deveria ser proibida de ter filho. nao vou nem comentar do ato 2 e 3, pq... afe, é cada uma, mas qto ao ato 1 já ouvi barbaridades e sempre fico muito indignada. essas pessoas vivem em que século?

Michele disse...

Oi Tina! Adorei os "causos", ri e me apavorei ao mesmo tempo... pegando o gancho da Haline, eu te pergunto: esses valores que você passa para a Nina (e que eu imagino que sejam os mesmo que eu procuro passar para a Clarice, minha "coisinha de jesus" de 2 anos), provavelmente a farão, digamos, ser um pouco diferente dos coleguinhas, num futuro próximo.

Eu procuro não incutir valores normativos na Clarice: de que menina só gosta ou pode usar rosa, que menina brinca de boneca e que carrinho é coisa de menino, e pretendo continuar assim, porque não quero que ela seja uma mulher-vítima, e que tenha suas escolhas tolhidas por esse padrão. Mas ao mesmo tempo, eu preocupo, porque tenho medo de que ela acabe ficando fora demais dos padrões e isso lhe traga outras dificuldades.

Ai, desculpe o comentário-pergunta-desabafo, mas quando dou uma betoneira de brinquedo de presente, fico meio insegura se estou fazendo o certo.

Bj e uma beijoca na Nina!

Bia, Desperate Housewife disse...

Ti-nah! Quanta bizarrice junta! Qua filhos essas mãos e pais estão criando? Tô nude coessas coisas.
Feliz da Nina viu? Bjo.

Vivien Morgato : disse...

Juro que eu queria comentar: mas não dá.

Denise disse...

Bah, que post engraçado. Eu sempre acho igualmente bizarro pensar que ainda tem gente assim em 2010. Mas ok, ok...