sábado, 31 de julho de 2010

Stallone tá certo (polêmica atrasada)

Desde que sou criança é o seguinte. Aparece um estrangeiro na cidade, no grupo, na escola, na faculdade, na rodinha, pronto. São tratados feito seres extraordinários, com as informações mais interessantes, a visão de mundo mais correta, mais completa - obviamente estou falando de primeiro mundo.

"Desde criança" não é só expressão. Quando morava no interior estrangeiros causavam frisson  - muitos técnicos vinham de fora pra instalar maquinário na fábrica da cidade. Meus vizinhos finlandeses, por exemplo. Foi muito rápido pra eles se integrarem à sociedade. Claro. Chovia gente querendo fazer amizade, conhecê-los de perto, ver as fotos da neve, de uma realidade totalmente diferente da nossa. Nada contra! Foi bem legal, mesmo, e importante pra minha compreensão do mundo. Mas o interesse durou pouco, da parte do grupinho bairro-trabalho-escola: até o momento em que eles demonstraram costumes bem mais avançados do que os nossos - tipo relacionamento aberto, ateísmo etc.

Outra oportunidade foi quando surgiu do nada um sul-africano por lá. Meu tio era o dono do único hospital da cidade e o cara, filho de engenheiros holandeses responsáveis pela instalação de uma super-turbina, décadas antes, havia nascido lá. Foi uma comoção quando apareceu o rapaz falando inglês na recepção. Meu tio foi chamado e o visitante, estudante de Medicina em viagem de férias pelo mundo, teve o prazer de passar as noites dormindo bem no quarto onde foi feito seu parto. Legal, né? Pois é. Fomos convocadas, eu e minha prima, que arranhávamos no inglês, pra ciceronear o tal holandês-africano. E daí foi o pacotão todo, clubes, casas, botecos, tudo pra exibir nossa própria versão globalizada. Conversa vai, conversa vem, o cara faz comentários do tipo "os negros africanos só são miseráveis porque se odeiam, lutam entre si". Veja que ainda era tempo de Apartheid. Mas minhas primas achavam que eu devia ter vergonha de ser tão jacu a ponto de ter tascado um beiijnho na bochecha do estrangeiro quando fui apresentada, coisa que o deixou visivelmente constrangido.

E assim segue a vida, até hoje.

Se a pessoa tem uns dólares a mais e pode vir visitar nossas praias e conferir nossas bundas, automaticamente, é tratado como um ser melhor e mais evoluído. No mundo empresarial, então, pfff. A pessoa pode ser uma anta, mas se fala inglês e tem passaporte com carimbo além de Portugal, uau. O silêncio vira sinal de inteligência e qualquer observação banal é interessante. Abrimos nossas portas e pagamos contas por momentos iluminados pela visão européia e americana, principalmente.

Antes que me acusem de xenófoba: não, não sou, e geralmente sou eu quem me divirto mais com a presença de estrangeiros, porque falo inglês um pouco melhor - ou um pouco menos ruim - do que a maioria dos colegas. Não estou falando de educação, simpatia e receptividade, mas de babação de ovo pura e simples. De agir como eterna colônia.

Então, finalmente entrando no mérito da fala do Stallone: houve toda uma reação nacionalista, mas acho que entendi a ironia. Estrangeiros vêm aqui e têm mais vantagens concretas do que em outros países. No caso dele a diferença foi clara: uma equipe de filmagem pode parar o trânsito, colocar transeuntes em risco, ordenar isso e aquilo - e quem esquece da negociação com traficantes pra viabilizar o vídeo do Michael Jackson? É como o vizinho bonitão que a dona da casa, excitada, deixa entrar e abrir a geladeira. Nem vou me estender falando em turismo sexual e outros exemplos do gênero porque invadiria a seara da economia.

Stallone não pediu nenhum macaco, mas o mico é nosso.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

O instrutor da auto-escola

A Ronise me provocou a contar a história da minha primeira aula de direção na auto-escola*.

Como bem sabem alguns que me seguem aqui há mais tempo, e aqueles que seguiam o blog véio, e ainda os que conheceram o blog anterior (deletado), voltei a dirigir depois que a Nina nasceu por causa das dificuldades de leva-e-traz de pediatra, escolinha, casa da vó, shopping (ops). Antes disso eu não dirigia, apesar de ter feito a carteira de motorista em Ribeirão Preto, uns oito anos antes. Nunca fui de gostar de dirigir e parte da culpa se deve à traumática primeira aula de trânsito da minha vida.

Era em Ribeirão. Eu só podia treinar direção na hora do almoço - temperatura média de 36 graus. Chego pra primeira aula do pacote de cinco ou dez (nunca fui otimista e também nunca tinha sentado no banco do motorista). A moça chama o instrutor: morenão grandão, uns 45 anos, barrigudo, peito de pombo, estufado - andando meio de lado como quem não aguenta andar porque comeu demais - chacoalhando as correntes no peito, douradas e desbotadas como toda bijuteria; a camisa azul estampada de viscose brilhava mais embaixo do sovaco e dos peitos. Enfim, aquilo tudo.

Feliz, falador, o tal instrutor (não lembro do nome) me apontou o carro, um modelo popular, xexelento, fedido e usado como ele. "Já vai sair dirigindo", avisou. Isso no centro da cidade, um mini-caos. Eu suava de calor e de nervoso, mas fui corajosa. Ele entrou.

- Aqui é a embreagem, ali o acelerador, o outro é o freio, aperta a embreagem pra ligar o carro. Isso. Liga. Agora põe em primeira, assim ó.

No blablabla da embreagem, pegou por cima da minha mão, no câmbio. E ali deixou.

- Troca assim a segunda, a terceira é aqui, a quarta, pra trás.
- Tá ok, obrigada.

E a mão lá, em cima da minha, colada. Vendo meu desconforto, avisou:

- Não leve a mal que eu pego na mão, né? Você é casada? Hahahahaah. Então não leve a mal a minha mão porque as minhas meninas gostam que eu ensine assim, você vai ver, vai aprender muito mais rápido.

Protestei tão timidamente que ele nem deu bola. Mandou virar, seguir em frente, foi freando e apertando a embreagem de seu lado (carros de auto-escola têm tudo duplo pra que o instrutor tome "as rédeas" do carro em caso de descontrole técnico ou emocional do aluno). Com 10 minutos de aula ele disse que eu já estava pronta pra andar mais rápido, me mandou pegar uma avenida que termina num viaduto.

E a mão por cima da minha, no câmbio, toda hora. Eu já começando a ficar roxa. Não sei o que fiz quando estava bem sobre o viaduto, se mudei de faixa, se acelerei demais, realmente não lembro. Só que o instrutor saiu de seu personagem blasé recostadão e deu um pulo, retomou o controle, disse pra eu não fazer nada, tudo muito rápido. Acho que demos uma freiada. Não sei.

- Menina, que susto você me deu agora! Não faça mais isso!
- Mas o que...
- Foi um susto muito grande!
- ...
- Sabe o que acontece quando eu me assusto? SABE O QUE ME ACONTECE????
- ... não
- Eu fico de pênis ereto.


Sim, você leu direito.

Olhei pra frente e não mais me mexi dentro do carro. Fomos em direção à auto-escola, ele me fez retomar a direção, obedeci a todas as instruções. Olhando pra frente. Ele não pegou mais na minha mão. Fui embora, perdi a grana do pacote, mudei de auto-escola. Imagina o perigo, com o tanto de barbeiragem que eu ainda tinha por fazer.


*Eu sei que mudou pra autoescola mas o blog é meu e eu ponho hífen onde eu quiser.