As meninas dos comentários* classificaram o trecho do post abaixo como escrita "simples”, e confesso que o termo me desgostou um pouco. Mas me apeguei ao seu principal significado – “o que evita ornamentos dispensáveis ou afetações”. Longe, portanto, sem qualquer ponto de contato, da simplicidade: aquilo que não tem complexidade, espontâneo, natural; ou ainda do simplismo: uso de meios por demais simples, ingenuidade.
Claro que consultei o Houaiss e o Aulette, hahahahah.
O ponto onde tento chegar é o seguinte: ser e parecer simples é desafio de uma vida toda. Um exemplo bobo e atual está na dificuldade inicial das pessoas que migram de blogs para o twitter. Depois elas se acostumam a reduzir idéias e a cortar adjetivos. Isso não quer dizer que se tornem claras ou interessantes somente por conseguirem formular alguma concisão.
(Ah, cortar adjetivos. Este poderia ser o meu emprego. Tenho um prazer doentio em deletá-los, e também repetições, preposições ou vírgulas desnecessárias.)
Mas estou falando mesmo é de textos. Tente contar de 1 a 10 sem pensar num coelho**. Agora tente escrever bonito, direto, claro, conciso, sem meter uns clichês e adjetivos pra encompridar, engazopar, alongar a frase.
E releia o trecho de Pergunte ao Pó, lá embaixo. É direto, não desperdiça palavras . Também não sobra nenhuma. O único adjetivo é “importante”, para a noite, que seria também decisiva – se o personagem não tivesse simplesmente deixado seus problemas para amanhã.
É claro que meu mestre, meu ídolo, o autor que escolheria caso fosse condenada a ler e reler somente a sua obra, pro resto da vida, é Graciliano Ramos.
“Levantei-me há cerca de trinta dias, mas julgo que ainda não me restabeleci completamente. Das visões que me perseguiam naquelas noites compridas umas sombras permanecem, sombras que se misturam à realidade e me produzem calafrios”.
(primeiro parágrafo de Angústia)
Agora me permita fugir do texto em si. A vida tende a ser assim, a exigir redundância, maneirismos, escapismos rococós. Às vezes a gente se rende – nas relações de trabalho, de poder e submissão, principalmente. Ou sempre. Às vezes a gente bate o pé e faz os cortes necessários – nas relações pessoais, familiares, ou lá por dentro. Na letra e na vida, eu acredito que é preciso editar os excessos. O que, repito, não é fácil.
*Meninas, foi só um gancho, ninguém se ofenda, por favor.
** Foi o que o monge zen disse ao aprendiz que queria aprender a esvaziar a mente.
** Foi o que o monge zen disse ao aprendiz que queria aprender a esvaziar a mente.