quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Paris, 1 e 2 ou: um olhar deslumbrado e caipira, mas que é só meu

Primeiro dia em Paris foi uma primeira noite. Culpa da empresa aérea que será devidamente processada ainda nesta semana. Mimimi rapidinho: íamos chegar por volta de meio-dia, pois sairíamos à meia-noite, 12 horas de viagem, desconta 3 horas de fuso-horário, mais o tempinho pra encontrar o hotel... então lá por 13h já estaríamos comendo um belo baguete a caminho de um dia e noite praticamente inteiros em solo francês. Mas não. A companhia – aquela com 3 letras, a mais cara, não a do nome de futebol – avisou em cima da hora que nosso vôo foi cancelado porque o avião estaria “em manutenção” (mentira, tinha poucos passageiros e juntaram dois vôos em um só) e teríamos o prazer e o privilégio de sermos levados a um hotel em São Paulo, para dormir até as 3h30, pois às 4h um ônibus nos levaria para o check-in no local às 5h e pegar um novo vôo às 7h. Ou seja. Passamos, além do ódio e tudo, o dia todo voando. O Dia que Perdi em Paris. Quanto vale um dia em Paris na minha vida? Eu que esperei 40 anos por esse momento? Só o Juizado de Pequenas Causas poderá dizer.

ENFIM.

Chegamos então entre 19h-20h. Você sabia que o aeroporto Charles de Gaulle é tão grande que existe um metrô dentro dele, para você ir de um terminal a outro, ou para ir aos estacionamentos? É grande demais. Incrível. Então fomos nesse metrô ao outro ponto do aeroporto onde se pega o metrô pra cidade, mesmo. Lá, levamos um tempo para entender onde e como comprar os tickets. Sabíamos onde descer para chegar ao hotel, deu tudo certo.
Uma vez no hotel – fiquei feliz por ter wi-fi no quarto, pra usar skype e falar com a Nina – rolou leve stress com porteiro mal educado, chegamos ao quarto, deixamos as malas e fomos procurar onde jantar. Era uma quarta-feira, mais de 22h, havia poucas opções e jantamos perto do hotel. Dica: não pense em comer carne na Europa, no inverno. Eles são bons em embutidos, massas, pratos tradicionais de peixes e aves. Estranhei demais a calefação, que deixa o quarto extremamente quente; como não sabia alterar a temperatura e como o porteiro da noite era muito estúpido, cometi uma idiotice pra poder dormir: liguei o ar condicionado.
Depois de um café-da-manhã maravilhoso, cheio de queijos, pães, baguetes, café de verdade e nenhuma fruta, finalmente fomos turistar em Paris. Estávamos perto de Notre Dame, então foi nossa primeira parada.


O que dizer de Notre Dame? É fantástica. E rústica, mais do que eu poderia supor naquela altura – ainda passaria por dezenas de igrejas muito maiores, mais iluminadas, com obras de arte mais importantes ou mais ricas. Mas é impressionante. Tem os gárgulas. A vista de Paris. De lá vi a Torre Eiffel pela primeira vez. Tem o sino do Corcunda. A estátua para Joana D’Arc. A história toda de quase-destruição (chegou a ser vendida para uma empresa demolidora e foi salva em campanha de Victor Hugo). E eu passei no teste que definiria o resto da viagem: não virei pó dentro de uma igreja.

à Como se trata de uma igreja em atividade, não se paga para entrar, mas paga pra subir – foram seis euros, se não me engano. Vai anotando. Fotos internas: permitidas, sem flash (fica uma droga, fazer o quê).






Continuando o passeio, fomos ao prédio lindo que fica em frente à praça de Notre Dame, e eu não sei até hoje do que se trata – se é governo estadual, municipal, prefeitura, como chama. Coisa assim. Ali pegamos o ônibus tipo hop-on hop-off, aquele ônibus de turismo mico, aberto, com microfones para explicações sobre o trajeto. Bota outros seis euros na conta (acho). Escolha ouvir em espanhol ou inglês: a narração em português de Portugal é impossível.


É emocionante, de repente, se aproximar do Louvre, do Arco do Triunfo, entrar na Champs Elisées. Meu coração peludo não me permitiu chorar, viu. Como não conseguimos ser rápidos em Notre Dame  (drama recorrente – sempre combinávamos “vamos conhecer tal lugar rapidinho” e dá-lhe hora e meia babando). Chegamos à Torre Eiffel no final da manhã.

Fotos do tipo panorâmica da Torre Eiffel todo mundo aqui já viu, né? Então fique com essa, da fila pro elevador.


Fato: a Torre Eiffel é a Torre de Babel moderna. Mais do que em qualquer outro lugar, lá você ouve todos os sons do mundo todo. Mas devo confessar: o “caraca” do Brasil se destaca.


Fomos só até a metade da torre porque o topo estava fechado para manutenção (karma). Mas eu até dei graças aos céus porque não sei se teria coragem de subir mais. Presenciamos grosseria de estrangeiros na lojinha da torre – as lojinhas de locais turísticos foram nossa perdição. Não gastei em cosméticos; em roupas, muito pouco e só na metade da viagem (esse casaco cinza não me agüenta mais), mas de cada uma, levamos pelo menos um lápis. Aqui o gasto foi com a famosa Torre encomendada por dona Nina. E um ímã de geladeira.

Aí começamos a andar e não paramos mais. Exploramos a região (Camps Du Mars), seguimos pela Champs-Elisèes, entramos em algumas lojas – experimentei mil esmaltes na Sephora, admito – e Mr. Lopes achou um livro raro na Virgin, mas achou que poderia encontrá-lo mais barato em sebo e não levou (depois teve que voltar). Passamos pelo Arco do Triunfo, claro, mas minhas fotos de lá ficaram péssimas, não sei bem por quê. E eu não tinha sido ainda picada pelo bicho das fotos, estava na vibe “vou apreciar mais e documentar menos”. Daí choveu. Compramos garrafinhas de 500 ml de vinho num mercado tipo Americanas e fomos felizes e ridículos, bebendo do gargalo, às margens do Sena. Mas tava um frio do cão.


(na foto, já de cabelo ensopado, com o Museu D’Orsay ao fundo)

Apesar das mil dicas enviadas carinhosamente pelas amigas, jantamos mal novamente (nunca estávamos perto dos locais recomendados) – é óbvio mas na hora não parece, então não custa reforçar: fuja do menu-turista em qualquer país – chegamos ao hotel e tivemos um pequeno momento de desgosto com o banho. O espaço do chuveiro era minúsculo. E o esquema é de duchinha, que você tem que pendurar. Foi assim em todos os hotéis, um saco.

Então que nosso primeiro dia pode até parecer mal aproveitado, mas foi um dia de ambientação, de reconhecimento de espaço. O suficiente para confirmar que as francesas não andam, elas desfilam pelas ruas. São lindas. Não há uma atendente de farmácia (como exemplo, nada contra, né) que não esteja com as unhas, cabelos e maquiagem em dia. Fala-se tanto da suposta grossura dos franceses, mas com exceção do porteiro e de um ou outro dono de loja que não curte dar informações, a maioria deles é distante,  até fria, mas educada e te olha nos olhos. Há ainda os muito simpáticos e esforçados. A maior parte dos funcionários de lojas, restaurantes etc. falam inglês ou espanhol, ou ambos. As ruas são limpíssimas e quero muito entender onde eles jogam as bitucas de cigarros, porque só falta os bebês fumarem naquela terra – e ainda assim não há bitucas à vista (meu cabelo ficou ótimo em Paris - talvez pelo ar seco, mas fedia cigarro como há anos não acontecia!). O trânsito é civilizado até onde parece caótico: basta um pedestre incauto surgir numa rotatória, que todos dão espaço e tempo para chegar a salvo à calçada. Eu sei. Fiz muito disso.

A impressão é de que tudo o que se fez em Paris foi registrado. Onde mais haveria uma placa explicando que ali viveu um inventor de um país tropical? Pois encontramos a placa da casa do Santos Dumont em plena Champs-Elisèes, entre duas lojas (eu sei que Dumont voou em torno da torre, tá). A foto está na câmera de nossos companheiros de viagem, depois atualizo e insiro aqui.

Deu pra perceber que eu me apaixonei, imagino.


DIA 2

Sempre combinando “amanhã, no café, às 7h30” (viajar com pouco tempo é um trabalho que exige disciplina), começamos cedo o dia seguinte. Destinos: Louvre e Palácio de Versalhes – um passeio com guia que já tinha sido pago antecipadamente. O plano era passar a manhã no Louvre, depois seguir à tarde pra Versalhes e voltar pro Louvre à noite. O ingresso do museu é válido por dois dias. PORÉM esquecemos da barbeiragem que a "T_M" fez com a gente e simplesmente não lembramos que não era quinta, e sim sexta-feira. E o Louvre fecha às 18h às sextas. Mas logo cedo não tínhamos nos dado conta.
Lembre que fomos a todos os lugares, sempre, à pé. Metrô e ônibus, nem pensar. Queríamos sentir o cheiro das ruas, andar na margem do Sena, que é hipnótico: limpo, navegável, atraente. E a cada praça, uma parada, uma estátua (ops, escultura, Cristina, escultura), uma ponte, uma placa, um marco, todos lindos, gigantescos, impressionantes. Andar por Paris é demais.
A manhã no Louvre voou e vimos muito pouco, claro. O museu é perfeito. Além do prédio magnífico (vou começar a repetir os adjetivos logo), as obras são espalhadas em salas de cores diferentes, que não brigam com as luzes, que por sua vez não jogam brilhos inconvenientes (diferentemente dos museus da Itália, mas fica pra outro post) sobre elas. Eu e minha trupe tivemos momentos de reflexão, admiração, emoção, profundos. E de muita palhaçada, também. Porque em Paris você é deixado absolutamente à vontade com as obras. É incrível! Os guardas, não sei como chamá-los, são discretos e apenas pairam sobre as salas. Se alguém abusa, chega perto demais, eles surgem de repente, discretamente, e com gestos elegantes, põem o abusado em seu lugar. E no Louvre ainda pode fazer fotos – até com flash.


Impossível de caber numa foto, por fora


Impossível de caber numa foto, por dentro


Que palhaçada, Cristina.

Vermeer, seu lindo.

Aposentos de Napoleão 3º, vamos jantar?


Vitória da Samotrácia. Se essa estátua – ops, escultura – não diz nada pra você, beleza. Mas eu chorei, mui discretamente, quando a vi. Ou melhor, quando corri até ela. Porque pra mim é o símbolo de “Cristina conseguiu fugir”. Quando eu estava na escola no interior, era a foto dela que me impressionava no livro de história, e a descrição: “A Vitória da Samotrácia está na escadaria do Louvre”, e eu lia e pensava, putz, nunca vou ver. E vi. E chorei, ora.

A turba e a Mona Lisa.

Eu, o cantinho e a Mona Lisa.

Ainda exploramos várias outras alas, interagimos com estátuas – ops ESCULTURAS – mas por hoje chega de Louvre, né? Eu podia fazer um blog só dele. Fomos, portanto, meio mal humorados e arrependidos de termos feito o pacote, para Versalhes. Tsc, tsc, hereges. Foi muito bom. Lembre que eu estava acompanhada de professores de Filosofia e de História da Filosofia, né? Então.

Fomos de ônibus, com uma guia francesa que falava em espanhol e inglês. Meu microfone estragou, mas tudo bem, consegui acompanhar as explicações. Emocionante. Você já sabe tudo sobre aquilo – os abusos do Rei Sol, de Maria Antonieta, dos 2.500 nobres e 3 mil empregados que viviam naquele palácio magnífico. Mas daí você sente nas texturas e nas reconstruções do que foi Versalhes, a revolta dos burgueses e do povo. Você faria parte da revolução. E séculos mais tarde, seria uma francesa explicando que na Praça da Concórdia não se faz fotos de casamentos ou festas porque ali foi assassinada uma rainha (além de outros milhares). Orgulho e ódio, incoerentes, tudo junto em cenário de cinema.


Vídeo na sala dos espelhos.

E isso foi só o começo, falei que eu precisava de tempo pra postar? Vou deixar então uma cena do próximo capítulo, ops, post.

Próximo capítulo: vexame no Boulevard Saint German (esta foto será deletada em 3, 2, 1...)

16 comentários:

Patricia Scarpin disse...

Ai, delícia que é te ler, Tina. Fui lendo, amando, e morrendo de saudade e de vontade de voltar. Ainda quero levar Pichu comigo pra Paris. Depois de agosto próximo não vou mais ter que implorar autorização pra ninguém. :)

cronicasurbanas disse...

Ai que bom que não fui a única a me liquefazer na frente da Vitória da Samotrácia! Cada vez que vou ao Louvre tenho que tirar uma foto dela - nem tchuns pra Mona Lisa, mas essa escultura realmente me deixa sem fala.

O prédio na frente da Notre Dame a que você se refere seria a Conciergerie? Se é, ele já foi palácio real na Idade Média, depois virou prisão (Maria Antonieta e Robespierre 'se hospedaram' lá na época da Revolução Francesa) e hoje é parte dos monumentos nacionais. Ela emenda com o Palácio da Justiça, onde está a minha 'igreja' favorita, a Sainte Chapelle, linda linda demais da conta.
Tô adorando seu relato de viagem e viajando junto...
bjk
Mônica
@madamemon

Tina Lopes disse...

Oi Crônicas, não, tô falando de um do outro lado da praça mesmo, depois pesquiso. A Conciergerie eu já sabia mas tinha esquecido de citar... ;)

AB disse...

Vou em maio. Será a primeira vez que saio do Brasil sem entar no Paraguai. Vou passar o link do seu blog pra minha companheira de aventuras. É ela que organiza o passeio.

André Gonçalves disse...

eu me revi em Paris. adorei seu post, e fiquei com inveja de nçao ter escrito um. mas sabe porque eu não escrevei? porque, acho, ainda estou lá. Paris nunca sai da gente. ou a gente nunca sai de Paris. é isso. não escrevi, acho, para continuar lá.

Mari Biddle disse...

Ai, bom demais ler seu post. Tô planejando uma viagem pra comemorar meus 40. Vou roubar a idéia de Mr. Lopes.

Impressionada de vc conseguir sair ilesa das compras de cosméticos. Eu sou tão cremilda que me impressiono com gente que tem controle.

Frutas e água caras, hã. Mesma coisinha por aqui e ainda mais em tempos de nevascas.

bjs procê.

Caminhante disse...

Se você que tem coração peludo se emocinou com a Samotrácia, imagina eu que tenho coração de manteiga, e quase me emocionei de você ter se emocionado?

Lu disse...

nossa, Tina. nunca saí do Brasil , nunca tive essas vontades pq não tenho ganas de viajar sem $$$. um dia com muita grana no bolso quem sabe? mas fico emocionadíssima com a sua emoção, e me deu até vontade de conhecer "Parri" :D

beijocas

Ana disse...

Tina a sua ida a Paris fica mais emocionante quando lemos seu relato. Como disse uma outra pessoa: é uma delícia ler o que vc escreve. Quero ver o outro post, o do vexame. Bj. ( e ai deixou a boneca da Nina mais moderna? )

Cam Seslaf disse...

Que delícia de post! E ainda me fez chorar, bandida.
Expulsa essa visita e posta mais, posta mais!

Renata disse...

adorei o post.

eu vi muito pouco do mundo, mas não consigo imaginar que exista um lugar mais lindo que paris.

ah, uma vez eu saí por lá sem maquiagem e entrei na sephora. nossa! logo me cercaram e quando eu vi, tinha várias pessoas ao meu redor me embonecando. até chapinha fizeram no meu cabelo.

Rita disse...

Ai, Tina... eu adoro esse deslumbre porque é exatamente assim que me sinto. Eu choro porque a coluna é antiga, porque o povo que fez revolução passou por lá, porque Mr. Fulano pintou e tocou a tela que tá ali na minha frente, ENFIM, não há limites para meus choros. E Paris é isso, né, a cidade mais linda. Talvez Roma seja a mais incrível desse lado de cá do mundo, mas Paris é certamente a mais linda. E se não for, não importa, oras, a gente segue se deslumbrando. Mal posso esperar pelos outros posts.

Bom demais, é como viajar um pouco com você.

Bj
Rita

ditavonclaire disse...

quer saber do que mais?
vou imprimir tudo e ler depois, fumando um cigarro e tomando uma ceveja. baita programa, né?

Vivien Morgato : disse...

Agora vou olhar a Vitória da Samotrácia - ou melhor, as gravuras dela..- e vou pensar na Tina Chorando.

Anônimo disse...

vc não viu os franceses com mini cinzeirinho portátil, daqueles que cabem na bolsa? vai ver é por isso que não tem bituca nas ruas, rs. Agora fico imaginando, se eu morasse na cidade que rebecesse por ano trocentos milhões de turistas "deslumbrados" do mundo todo, passeando, fotografando. Pô, imagina?
Magnífica cidade pra passear.
beijos
madoka

Anônimo disse...

vc não viu os franceses com mini cinzeirinho portátil, daqueles que cabem na bolsa? vai ver é por isso que não tem bituca nas ruas, rs. Agora fico imaginando, se eu morasse na cidade que rebecesse por ano trocentos milhões de turistas "deslumbrados" do mundo todo, passeando, fotografando. Pô, imagina?
Magnífica cidade pra passear.
beijos
madoka