terça-feira, 30 de agosto de 2011

Sorrisinho amarelo

Do que você tinha mais vergonha na vida, quando era adolescente? Eu respondo de bate-pronto: de comprar Corega pro meu pai, na farmácia. E pândego que era, ele sempre dava um jeito de me incumbir dessa missão.
Lembrei disso ao ler a notícia do G1: mulher manda fazer dentadura com aparelho, pra parecer mais jovem (e não-desdentada, claro). Beira o surreal. Linkei no twitter, ri muito com as amigas. Mas alguma coisa ficou me martelando dessa notícia. À noite, fui visitar minha mãe, levar o presente de aniversário. Contei a história e ela: "ué, mas você não lembra? A sogra da tua prima fez isso ano retrasado". Ou seja, somos vanguarda, os Lopes.
Minha amiga se assustou quando contei que meu pai usava dentadura. Ah, cidade grande. Essa coisa de arrumar os dentes é tão recente, tem 30-40 anos. Tenho primos com menos de 50 anos que usam dentadura. E não vivem na roça, não. Só perto. É triste, mas a gente ri. Um deles, desempregado, arrancou uns tocos que estavam doendo e foi pedir um dentadura na prefeitura - afinal, político serve pra isso mesmo. Uma assessora mostrou a ele um balaio cheio de dentaduras. Ele que experimentasse uma por uma, até achar uma que servisse. Ele diz que se recusou.
Teve outro primo que, certa vez, trocou a dentadura e demorou a se acostumar com a nova. Foi enviado para outra cidade, para um treinamento do banco. A droga da dentadura apertando. Não teve dúvida: no meio de uma palestra, tirou a miserável e cruzou os braços, guardando-a na mão, debaixo do sovaco. Todo mundo estranhou que ele passasse tanto tempo quieto, sério. Diz-se até que sua concentração impressionou o chefe e ele logo foi promovido.
Outro primo, que trabalhava na Fábrica, por sua vez, estava nessa mesma época de dentadura frouxa e foi para outro treinamento de pessoal, num hotel, como fazem as grandes corporações. Só que era uma reunião de chefias e sabe que nesses casos rola um uísque pesado. Meu primo bebeu muito e acabou vomitando no banheiro. Os colegas o levaram pro quarto, pra passar o porre. Mas quando passou ele se deu conta que estava banguela. Teve que voltar ao banheiro e procurar a dentadura - que estava lá onde foi cuspida. Sorte dele que o pessoal da limpeza não tinha começado o turno ainda. Bem, sorte... quer dizer.

Cresci ouvindo esse tipo de história e comprando Corega na farmácia. Nem preciso dizer o quanto sou neurótica com a higiene bucal.


PS: olha que interessante, nunca vi uma dentadura em copo, eca.

6 comentários:

Grazi disse...

Das coisas que mais me impressionaram na infância foi a dentadura da minha avó, que tirou todos os dentes bem nova, porque tratamento dentário não era comum nem acessível. A gente ficava pedindo pra ela deslocar um pouco e ficava lá, fascinado. Além da clássica cena da dentadura no copo. A copeira lá do trabalho colocou, mas acho que o defunto era maior, sabe? Aí o olhar acaba sempre sendo atraído para aqueles dentes que não ornam.
Espero nunca precisar usar uma! hahaha

Lu disse...

Seus Posts são muito bons! Tive q ler esse em voz alta pro marido hahaha. Minha avó guardava a dentadura num copo d'água toda noite, em cima do criado mudo... Eu dormia com ela nas ferias e acordava c aquele sorriso no copo ui.

Rita disse...

Vi uma reportagem uma vez sobre o setor de achados e perdidos do metrô de Londres. Preciso continuar o comentário?

Muitas.

Rita

caso.me.esqueçam disse...

e nao eh que bem tarde da vida, descobri que um dos dentes da frente da minha mae eh postiço?

:O

fiquei cho-ca-da. e ela tem 51 anos. 52, sei la... nao se nota, se ela nao tivesse dito, eu nunca saberia; mas perguntei o que raios houve pra que ela perdesse um dente. e o dente da frente. mae: "ah, minha filha, naquela epoca ninguem se importava com higiene bucal nao". ainda bem, entao, que "naquela epoca" as proteses eram boas, porque, veja bem: meu pai chega na minha mae, eles nao se conhecem. ele ta afim. ela da um sorriso e pah! desilusao. eu nao teria nascido. :/

Iara disse...

Meu avô vivia em Barra Mansa-RJ, cidade cortada pelo rio Paraíba do Sul. Daí que meu avô um dia foi fazer uma dentadura. Voltando pra casa, achou que o troço o incomodava muito. Atravessando a ponto, resolveu jogar a dentadura no rio e nunca mais foi fazer outra. A imagem que eu tenho do meu avô é ele com a boca murcha, fazendo um movimento para encostar um gengiva na outra. Por conta disso, por parecer constantemente mascar chiclete, a molecada da vizinhança o chamava de Babaloo - e como ele era mei surdo, dizia que não entendia porque chamavam ele de Barba Azul. Fim da história. :)

deniseescreve disse...

Minha avó paterna usa uma dentadura que caiu um dente! (e da frente, ainda por cima) É muito engraçado, meio triste, mas é.
Certo dia estava eu e minha sogra, no biarticulado em Curitiba. E minha sogra usa dentaduras. Uma criança estava sentada, comendo todos os chicletes do mundo e acabamos papeando com a mãe entre um tubo e outro. A criança, super observadora (devia ter uns 4 anos), soltou: você não tem dentes, né? Ela, toda sem-graça, disse que sim, que todos nós temos dentes. A criança percebeu a dentadura, pode?
hahahaha

um beijo!