domingo, 9 de janeiro de 2011

Sempre teremos Paris




Quando o E. passou no mestrado de Filosofia e fomos morar no interior de São Paulo, vislumbramos a possibilidade de, com uma bolsa-sanduíche ou coisa que o valha, um dia, morar na França. Casaríamos para garantir o meu direito de ir junto e seríamos jovens e felizes cidadãos do mundo. Seria só o começo de uma longa vida de privações, álcool, cigarro, papo cabeça e glamour típico de filme... francês. Mas não foi o que aconteceu. A vida real nos atropelou e contingências, desde a redução das bolsas sob FHC a tragédias familiares, nos prenderam e finalmente, depois de muitas mudanças internas (quero dizer, no mapa e dentro de nós mesmos,) conseguimos chegar a uma rotina pacata, trabalhosa e enraizada de classe média-média brasileira. Casamos depois de 9 ou 10 anos  juntos (há controvérsia) para garantir os direitos a plano de saúde etc. e preparar a chegada Ninotchka, a Absoluta.
E Paris ficou lá, longe.
Só de birra, passei a desdenhar França e o resto do mundo. Se não era pra morar, então eu simplesmente não queria ser turista em lugar nenhum. Não estudei francês. Me desinteressei.
Todos os nossos esforços se voltaram para aquilo que, se não desprezávamos, tampouco era nosso objetivo 15, 20 anos antes: casa própria, conforto, segurança. Nossas férias sempre foram em direção ao sol,  até que um belo dia (agorinha), às vésperas dos 40 anos, E. decide se autopresentear com uma viagem rápida, que em princípio seria para o Rio de Janeiro, mudou para um paraíso no Caribe e finalmente foi acertada como um giro pelos destinos mais importantes da França e Itália.
E hoje estou aqui, a poucos dias de desembarcar no Charles De Gaulle, pleno inverno, com o coração apertado e já ansioso pra voltar pra minha gatinha, que fica com a vó por duas semanas inteiras. Mas não só pra ela - meus projetos para 2011, para uma vida que, se tudo der certo, pode ser um pouco diferente a partir de fevereiro.

Admito que em algum momento - no aeroporto, na subida clichê da torre Eiffel, no café de Simone e Sartre, quem sabe - eu vou chorar, sim, mas não se engane: não será por mim.