Estive no sindicato esta semana para encaminhar os papéis da carteira internacional de jornalista. Nas viagens anteriores ao exterior eu bobeei, porque com ela o jornalista não paga para entrar em vários lugares como museus e pontos turísticos, uma tremenda economia. Como era de se esperar, foi uma viagem aos anos 80. O sindicato continua o mesmo, tem aquele climão de funcionalismo público caricato, de paletó na cadeira, dois guris indies no Facebook enquanto a secretária faz tudo, atende os telefonemas, imprime, faz café etc.
Cheguei no trampo e comentei com o pessoal da redação o que tinha feito, por que tinha demorado tanto (sou frila mas cumpro horário). Aí todos - todos - comentam que ainda não tinham DRT - o registro profissional de jornalista.
Corta pra reflexão: sou contra a obrigatoriedade de diploma de jornalista. Tenho o meu porque quis trabalhar na área. Mas poderia ter feito qualquer outra faculdade de humanas e teria o mesmo histórico profissional, porque as matérias específicas não me fizeram a menor diferença. Nenhuma. Zero. Só estudei e utilizei o que aprendi de Literatura, Redação, História, Filosofia, Antropologia.
No dia seguinte, vejo uma movimentação entre os colegas: estão verificando os documentos necessários para fazer o tal registro através, diretamente, do Ministério do Trabalho. São muitos e bem chatos de resolver. Dou um palpite: "por que vocês não vão direto ao Sindicato, lá é bem mais fácil".
Foi como contar uma piada suja. Riram e se indignaram ao mesmo tempo. "Imagina, aí vou ser obrigado (a) a me sindicalizar, nem pensar, que absurdo, ter um desconto no meu salário!". A mensagem clara foi: nós somos espertos, você é trouxa.
Aí me deu uma tristeza. Veja bem a contradição. Sou contra o diploma, mas sou sindicalizada. Sempre que estive empregada regularmente, paguei a mensalidade. Já votei algumas vezes na eleição do sindicato, até - apesar de ser sempre chapa única. Me explico: se hay categoria, se faço parte da categoria, então vou me comportar como uma operária da categoria. Se eu não sou sindicalizada, automaticamente estarei do lado do patrão. E o Patrão do jornalismo, não se enganem, ainda é aquele capitalista de charutão e uísque, tão caricato quanto a secretária oitentista do Sindicato. Disfarçado, mas é esse o espírito, ou a alma do negócio. A meu ver o diploma, ao contrário do que argumentam, não protege a categoria de salários ínfimos, mesmo porque o piso salarial não poderia ser menor.
Não sou sindicalizada por mim: nunca quis me valer das leis trabalhistas para processar ninguém, apesar de ter tido, inúmeras vezes, razões para isso (aí é outro papo, porque eu acho que sou adulta e vacinada para aceitar um contrato de trabalho, cumpri-lo e não exigir, depois de sair, direitos que não tinham sido colocados na mesa). Sou sindicalizada simplesmente porque sou uma CDF, porque acho que é minha obrigação com meus pares, enfim, porque sou demodé, antiquada, do tempo em que a gente pensava na "categoria", no coletivo. De fato, me vejo espelhada nos olhos dos colegas tão novinhos e tão espertos e me reconheço: uma trouxa.





