sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Meme dos livros: Dia #3 - Um livro que é um soco no estômago

Felicidade Demais. Que título enganador. Há quem não goste da canadense Alice Munro porque sua leitura é, mesmo, enganadora: algumas histórias que parecem ter um desenrolar normalzinho acabam abruptamente e te deixam sem chão, sem saber onde colocar aqueles personagens; outras são apenas barulhos, impressões, vento que bate e nada parece acontecer. E geralmente só acontece "por dentro", mesmo. Mas não se engane: não é uma Virginia Woolf que demora 300 páginas para contar uma caminhada até um farol (nada contra). E há aqueles difíceis de explicar do que se trata.


Este o primeiro livro da autora que comprei e depois disso passei por uma fase lendo tudo que pude encontrar dela. Só não estou fazendo isso agora porque me obriguei a variar e também porque não sei ler vários ao mesmo tempo.

O TAL SOCO

Comecei a ler o primeiro dos dez contos no horário do almoço, no restaurante vegetariano, "laralala, vou ver qual é dessa autora ganhadora do Nobel". Na primeira página já perdi o fôlego. Vi que era uma heresia deixar a leitura para aquele horário e local e poucas vezes o turno da tarde demorou tanto pra chegar, agoniada que estava para saber que diabos tinha acontecido ou o que iria acontecer com a protagonista, Doreen. "Dimensões" fala de uma morte em vida, dando pistas sobre os fatos.



Outro conto é tão impressionante quanto o primeiro: Brincadeira de Criança, que nos convida a participar de uma situação absolutamente condenável e horrível. E você vai junto e (quase) entende. 

Já o último conto é uma linda homenagem da autora à matemática russa do século XIX, Sophia Kovalevsky, uma ficção em torno de sua vida admirável e morte dramática. Feministas russas rules. Principalmente as que têm uma estrela com seu nome - de verdade! 

É isso por hoje. Amanhã, o mais fácil - um livro que eu indicaria para um amigo.

Ei, atenção: procurei os nomes dos contos no Google (está chovendo e pra pegar o livro tenho que ir ao escritório atrás de casa, então apelei pros PDFs mesmo) e o jornal Rascunho dá spoilers imperdoáveis, evite.


quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Meme dos livros Dia #2: um livro que podia virar filme

Jurei a mim mesma não repetir novamente, aqui, nenhum título do lendário meme dos 30 Dias, 30 Livros. Tenho me esforçado pra ler mais, apesar de só conseguir isso à noite, na cama. Confesso que procurei conhecer autores novos mas na maior parte das vezes me entediei. Nem vou citar alguns que me fizeram revirar tanto os olhos que consegui ver a encarnação passada* para não virar polêmica (não agora), mesmo porque hoje o papo é o livro que poderia/deveria virar filme. Bem, quase todos nos quais pensei já foram adaptados. Madame Bovary, O Amante, Os Miseráveis, Fim de Caso, A Insustentável Leveza do Ser etc. São poucos os bons filmes ou à altura dos livros. Muitas vezes, também, a gente lê alguns que parecem ter sido feitos com o pé no cinema, como aqueles policiais escandinavos pavorosos (alguns, pavorosos como literatura, mesmo). 

Escolhi um que, aposto, terá esse destino e eu já fico re-zan-do para que o protagonista não seja apenas mais um rostinho bonito e para que o diretor seja um dos meus favoritos. O Pintassilgo, de Donna Tart, é um daqueles livrões de Círculo do Livro, que nos anos 1980 teria rodinhas de tias trocando spoilers mesmo sem saber que isso agora é proibido e punido com morte lenta e dolorosa.



Ganhador do Pulitzer, O Pintassilgo foi malhado por parte da crítica (na verdade, pela The New Yorker e pela Paris Review) e amado por outra. No Brasil, naturalmente, isso foi muito destacado no lançamento, principalmente porque o crítico americano o chamou de "infantilização da nossa cultura literária, num mundo em que todos lêem Harry Potter". Uôu que ofensa, hein. 

Mas resistir à história épica do menino (Theo) que perdeu a mãe num atentado a um museu, foi morar com o pai jogador em Vegas, conheceu um rapazinho russo (Boris, apaixonante) completamente doido e bandidinho, depois de ter passado um tempo na casa de um amigo rico  (Andy, um fofo) da escola, e que cresceu com um segredo guardado a sete chaves, ou melhor, uma só, num self storage, fica adulto, com uma paixão eterna pela sobrinha daquele que se torna seu melhor amigo... quem há de? 



Minha relação com o protagonista beirou ao amor que sinto até hoje pelo Philip, de Servidão Humana (Somerset Maugham). De vez em quando tem que dar uma folheada pra ver o que o menino anda aprontando. Ou por Arturo Bandini - esse fica pra outro dia. 

*citando Lucila Figueiredo

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Meme dos livros! De novo? Que ano é hoje? Sim, de novo e se reclamar vai ter mais

DIA #1
Um livro que é um abraço

Que difícil. A exemplo das amigas que participam da brincadeira (links no FB e aí do lado), pensei no significado do abraço e me dei conta de que sou uma pessoa abraçadeira. Volta e meia abraço alguém e penso logo em seguida  – Mas Cristina, precisava abraçar? Olha aí, só você abraçou. Você nem gosta da pessoa. Por que abraça? Pra fazer de conta que gosta?
 
(Terapia pra quê, se a gente tem a medicina moderna e as listas que abrem uma torneira de livre associação.)
 
Pensei em vários livros que amo, que estão sempre ao meu lado, cujos personagens me fazem falta e de vez em quando folheio só para reencontrá-los. Mas abraço, mesmo, daqueles que faz a gente se sentir bem, acolhida, em paz, lembro de ter sentido com (juro que não estou querendo chocar) O Analista de Bagé, do Luis Fernando Verissimo.
 
No meme anterior, os 30 Dias e 30 Livros, ele já foi escolhido como um Guilty Pleasure. Roubo no jogo e colo o texto aqui, porque o sentimento não mudou e você vai entender o porquê do abraço.

Convencionou-se que os livros de Luis Fernando Verissimo não são literatura séria. Bem, eu acho que rir é coisa séria, sim. Eu tinha 18 anos e exatos 10 meses para aprender tudo o que não tinha visto de conteúdo em três anos do segundo grau, morando na (desejada) capital com a tia e a prima que me abrigaram. Minha mãe gastava todo o salário da escola estadual para pagar o cursinho e a pressão era inacreditável. Ou eu passava no vestibular, ou eu voltava pro interior. Vivia com dor no estômago e com a certeza de que meu maior esforço não seria suficiente. Aí um sábado, depois de um daqueles vestibulares simulados, no qual tinha me saído mal em matemática e física, me sentindo completamente derrotada, me isolei no quarto para continuar estudando, estudando, estudando. Fui procurar um livro qualquer na estante e achei um exemplar de O Analista de Bagé. Já tinha ouvido falar e visto uma propaganda na tv de uma peça homônima, puxando pro pornô. Fiquei curiosa e dei uma folheada. Mal sabia de Freud, mas fui lendo e lendo. Passei a tarde disfarçando as risadas. Foi um momento de respirar fundo pra continuar, de me permitir um pequeno prazer. Anos depois, passei a comprar tudo que pude de Verissimo. As Comédias da Vida Privada, os textos sobre as Copas do Mundo, as tirinhas das Cobras. Machista, leve, irresponsável, sim, mas Verissimo também sabe ser incisivo com relação a política, reflexivo e até poético. Acho que é um autor como Bukowski, que sofre o preconceito do "não li - não gostei" ou "li um pedaço e achei ruim".
 
Naquele dia o livro foi um amigo daqueles bem humorados que chega com uma garrafa de vinho e contando piadas para te fazer esquecer o dia ruim. E que te abraça.

Pues, diz que o divã no consultório do analista de Bagé é forrado com um pelego. Ele recebe os pacientes de bombacha e pé no chão.

— Buenas. Vá entrando e se abanque, índio velho.

— O senhor quer que eu deite logo no divã?

— Bom, se o amigo quiser dançar uma marca, antes, esteja a gosto. Mas eu prefiro ver o vivente estendido e charlando que nem china da fronteira, pra não perder tempo nem dinheiro.

— Certo, certo. Eu...

— Aceita um mate?

— Um quê? Ah, não. Obrigado.

— Pos desembucha.

— Antes, eu queria saber. O senhor é freudiano?

— Sou e sustento. Mais ortodoxo que reclame de xarope.

— Certo. Bem. Acho que o meu problema é com a minha mãe

— Outro.

— Outro?

— Complexo de Édipo. Dá mais que pereba em moleque.

— E o senhor acha...

— Eu acho uma pôca vergonha.

— Mas...

— Vai te metê na zona e deixa a velha em paz, tchê!