Em 1982 a Seleção Canarinho foi pra Espanha. No avião os jogadores tocavam um sambinha e davam entrevistas exclusivas pra Globo (bem, naquela época acho que só a Globo tinha verba mesmo). Num canto, fazendo pose com um livro na mão, Sócrates, *o* Cara do passe de calcanhar, corintiano, líder da democracia corintiana, lia um livro. O repórter vai e pergunta qual era o livro - Filosofia, ele responde. E dá-lhe matéria traçando paralelo entre Sócrates, o mestre de Atenas, e o Dr. Sócrates, o doutor da seleção.
Neste momento, num ponto perdido do interior do Paraná, um menino de 11 anos, corintiano, se impressiona com a reportagem e guarda a informação "Sócrates - Filosofia" para um futuro próximo, em que passará a frequentar a (única) biblioteca pública da cidade.
Salta aí uns 15 anos no tempo.
Salta aí uns 15 anos no tempo.
Morávamos em Ribeirão Preto. Marido fazia mestrado em Filosofia e já dava aulas. Tínhamos saído da fase "como vamos pagar a porra desse aluguel" pra "já dá pra tomar umas cervejas". E tínhamos o melhor boteco pra isso do lado de casa: o bar da dona Elza, carinhosamente apelidado de balcão do INSS graças, lógico, à faixa etária dos frequentadores. Inclusive tinha uma barata empalhada numa parede que fazia parte do acervo arqueológico. Graças a deus eu morava ao lado e nunca precisei usar o banheiro. Bem, lá conhecemos pessoas interessantíssimas, entre as quais um ex-jogador de futebol, muito magro, funcionário dos Correios, que trabalhava na expedição durante a madrugada e ia, todo fim de tarde, encher o tanque antes do trabalho. Ele tomava cerveja preta daquelas de garrafa pequena junto com um copinho de Steinheger.
(Anos depois ficamos sabendo que ele fez um transplante de fígado e não bebia mais. Certo Natal demos a ele, de presente, o Cartas na Rua, do Bukowski, e ele adorou. Esqueci seu nome)
Então que nosso amigo carteiro tinha um colega de futebol na adolescência apelidado de Caveira. Era o Dr. Sócrates. UAU! Queríamos detalhes. O carteiro contou que de vez em quando o jogador, pessoa mais ilustre da cidade, visitava seu amigo cantor, que se apresentava num restaurante ali perto.
Pronto, começamos a bater ponto no restaurante. Todo sábado, praticamente. Não esqueçam que eu tinha um pôster do Sócrates ao lado do Michael Jackson no meu quarto aos 14 anos... Viramos habitués e comíamos sempre um filé à Chateaubriand meio duro, porém cheio de champignon e ervilha - eu infelizmente sempre tive que respeitar o gosto do marido pela Filosofia e pelos champignons. Era barato e a cerveja suuuper gelada. Mas o melhor era a música ao vivo do tal amigo músico.
Eram agradabilíssimas as noites ouvindo o Bueno cantar só o melhor do samba e da MPB. Esquecemos do Dr. Sócrates (um dia eu até o vi passar de carro, no centro, e dei um tchauzinho patético pro meu ídolo). Minha preferida era "gripe cura com limão, jurubeba é pra azia, do jeito que a coisa vai o boteco do Arlindo vira drogaria"
Até que finalmente o Bueno - estávamos praticamente íntimos - disse "hoje meu amigo doutor vem aí" e disse que ia apresentar o marido pra ele, pra conversar sobre Filosofia. Imagina. Lá pela meia-noite chegou Sócrates e sua trupe. Fomos apresentados. Conversamos. Quer dizer, eu disse oi. Marido contou a história da reportagem sobre o livro de Filosofia no avião e ele morreu de rir. Disse que pelo menos pra despertar o interesse do marido pelos livros aquela Copa tinha servido... foi legal. Lá pelas duas da manhã, Sócrates quis cantar com o Bueno. Achamos divertido. Só que ele pegou o microfone e começou a cantar composições próprias. Tipos, ´ai minha família que veio desbravar o interior´... Climão no restaurante, mas todo mundo lá respeita o Dr. Sócrates.
Depois disso abriu-se a porteira. Sócrates ia todo final de semana. Não deixava o Bueno cantar. Monopolizava o microfone e a cerveja. Saíamos de casa pra ouvir o Bueno e tínhamos que aguentar o Sócrates. Que ainda por cima, nunca convidou o Raí.
Moral da história: mantenha distância dos ídolos. Eles podem ser chatos.
