segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Duas historinhas e um desejo pra 2011

Outro dia eu estava no carro de uma amiga, estacionando, com nossos dois filhos atrás, e a avisei muito em cima da hora sobre um buraco perto do meio-fio onde ela ia parar – sei dele porque já caí e quase me custou a roda do Ka. Ao dar uma guinada para o lado da rua, abruptamente, ela quase bateu no carro de um cidadão que estava estacionando na garagem da casa ao lado (estávamos indo para o prédio da minha mãe). Ele desviou mas ficou parado na calçada, sem abrir o portão automático, baixou o vidro de seu carro e começou a xingar-nos, histericamente. De putas, vagabundas, essas coisas que mulher ouve quando comete qualquer erro. Bem, o erro foi meu, que avisei do buraco assustando minha amiga, mas fiquei puta mesmo, como ele previa, com a gritaria. Desci e logo me dirigi ao homem, que ainda estava lá, nos xingando: - olha, me desculpe, a culpa foi minha, mas minha amiga não sabia desse buraco aqui na frente, eu que a assustei e... Não adiantou, ele mal me ouviu e me mandou, solenemente, tomar no cu. Aí não havia mais motivos pra argumentos, respondi com um “me poupe”, dei as costas e voltei pro carro. Nem dois segundos depois o homem, enorme, forte, e totalmente descontrolado, já tinha encostado seu nariz no meu, informando que eu devia agradecer por não me encher de porrada. Fiquei com as pernas bambas, me vi estendida no asfalto quente, deformada por um soco daquele orc, e implorei por favor não assuste as crianças e me desculpe por ter te ofendido. Ele saiu com aquela superioridade de força bruta.

Corta pra hoje.

Não contei ainda, mas eu e Mr. Lopes vamos viajar para a Europa, por 12 dias, numa iniciativa de última hora, daquelas “loucurinhas” divertidas – a ideia era viajar rapidinho pra comemorar os 40 anos dele - que acabam virando verdade. Temos um amigo operador de turismo que fez as reservas de hotel, que resolveu as pendências todas, e ficou tudo acertado. Só faltava o passaporte. Fizemos o cadastro e agendamos a data para fotos e assinatura do passaporte na internet: hoje, poucos dias antes da viagem – mas ainda a tempo de recebê-lo. Portanto, contando com a sorte de não termos uma greve da categoria, estava tudo certo. Chegamos lá com hora marcada, mas tivemos de ficar esperando, na frente de uma TV em que passava Os Incríveis Espiões e Bakugan no volume máximo. Os funcionários, já estressados na primeira segunda-feira da década, chamavam os cidadãos um por um, em tom baixo de voz, sem repeti-los, causando uma sensação geral de insegurança e desconforto. Levamos a Nina, que ficou desenhando e fazendo jogo da velha com o pai. Quando me chamaram, ela teve que ir junto, porque ele ainda não tinha voltado da baia onde o atendiam. A funcionária olhou feio pra Nina e não deixou que sentasse na cadeira onde se tiram fotos, pra não deslocar do ângulo correto. Ok. Nina sentou no canto e ficou quietinha, mas o humor da mulher já não estava grande coisa. Apesar de agendada para as 11h15, já era quase meio-dia; o celular da atendente tocou e ela só olhou, visivelmente contrariada. Ficou emburrada também quando entreguei a certidão de casamento à toa, porque afinal não mudei meu sobrenome. Bem, eu não tinha me tocado disso. Então ela aparentemente conferiu os documentos. Banquei a simpática e perguntei se era sempre muito movimentado, ela respondeu com um “rá, claro”. Perguntei se o prazo de entrega do passaporte ainda estava em cinco dias úteis, ela respondeu “seis” – portanto fica pronto dia 11. Eu falei ai que alívio, porque minha viagem é no dia 12. Ela me olhou feio. “Seu endereço é Rua blablabla número XXX CEP tal?” Sim. “Olhe aqui e confira os dados”. Olhei, tava meu nome, Curitiba, Paraná, data de nascimento e tal – tá tudo ok. “Tá ok então foi”. EI PERA AÍ ali é local de nascimento? Não é Curitiba, é Fim do Mundo, PR!

Entende? Tava errado meu local de nascimento e a funcionária deu enter - eu confundi com local de residência. Um desastre, e ela deixou isso bem claro. “Agora acabou, não vai mais ter passaporte”. Como assim não vai ter? “Você não leu? Não estava tudo certo? A culpa é sua, você que errou”, praticamente gritou na minha cara. Resumindo. Fiquei desesperada. Pedi que me ajudasse. “Como vou te ajudar, minha filha, você errou. SACO, EU QUERO IR PRO MEU ALMOÇO”. Daí eu implorei. Deixei claro que estava implorando. Ela foi falar com a chefe e me deu uma “chance”: pagar novamente o processo (R$ 156) e voltar à fila ainda hoje, que me encaixaria. Fui pra casa, comecei tudo do zero e pelo menos a internet não falhou, paguei novo boleto, voltei ao local e chamaram a funcionária, que desta vez, depois do almejado almoço, me atendeu mais civilizadamente e sem zombaria ou desprezo. A coisa toda foi resolvida, com prejuízo pro meu orgulho e pra minha auto-estima, além da grana.



Duas historinhas chatas pra explicar o que desejo para 2011 e para o mundo: respeito ao próximo. Na rua, em casa, na presidência, no órgão público, no trabalho. Porque tá faltando. E tá puxado.

7 comentários:

Priscila disse...

Nossa. Lido com isso diariamente, só que do lado de lá. Trabalhar no serviço público, com toda aquela burocracia, serviço repetitivo e absolutamente nada estimulante deixa algumas pessoas bem ranzinzas. Mas eu me choco sempre. São pessoas, pô. Meu lema: não quer lidar com gente, vai morar na caverna.

[Quanto à primeira historinha, me deu calafrios. Fujo da auto-escola como o diabo da cruz.]

E.. bom, maravilhosa viagem pra vcs!
=)

Caminhante disse...

Eu jurava que o cara ia amolecer depois que você foi lá pedir desculpas calmamente. Porque uma pessoa normal teria amolecido. Que coisa horrível, Tina. Não tem nem como definir.

Quando eu fui tirar meu passaporte (só de alegre, porque não tenho previsão pra usar) tbm atrasou pacas, sistema fora do ar. Fiquei achando que eu era a única do mundo do único dia do mundo que eles não são pontuais. Estava errada.

Em ambos os casos - saiu humilhada mas viva.

@umpassonocaos disse...

meu deus!
foca na viagem. é o que se pode fazer. mas que ignorância de atendente acaba com o dia da pessoa... ah, acaba :(
boa sorte em tudo!

Sealvia disse...

Até hiperventilei aqui! Que óido!
Faço coro com vc. Também desejo mais respeito e cortesia em 2011, 2012 e fim do mundo afora.
Mas juro que dá vontade de andar com um daqueles trecos de dar choque, hahaha
Na verdade, nem precisa. Só de imaginar a cena do ogro babaca do buraco estrebuchando com um choque já dá uma aliviada na tensão.
E perrengue com passaporte, pensa que pelo menos vc não vai ter que passar por isso de novo nos próximos anos :)

cronicasurbanas disse...

Ando cada vez mais passada com a falta de delicadeza das pessoas em geral. A coisa anda feia mesmo, a ponto da gente se espantar quando é bem tratada.
Uma ótima viagem pra vocês!
Mônica
@madamemon

Simone disse...

Só li agora Tina, mas fiquei curiosa com uma coisa: quando seu marido foi te acompanhar (imagino que tenha ido, o dele já devia estar pronto) ela mudou o tom? Porque eu tendo a pensar nisso, que as mulheres são alvos fáceis, tanto de homens quanto mulheres, nessas situações que você descreveu aí. Lido com público e vejo que situações assim (mau humor e agressão gratuita) não acontecem com homens (mesmo que seja o estagiário de 20 anos).

Raiza disse...

Deixa eu ver se eu entendi:O cara te deu um soco,foi isso mesmo?
Não to acreditando.Você deu queixa? só a ameaça já valia.Sei que a gente fica com medo,mas se deixar barato esses cretinos não aprendem nunca.
Quanto a atendente nervosinha,olha é o que eu mais tenho visto.Ou é arrogância e falta de educação ou são hiper gentis mas não fazem o trabalho direito.Todo dia tenho ganas de matar um(a).Quando o jetleg me deixar vou contar minhas experiências no aeroporto de Guarulhos.Realmente,o Brasil não é um lugar fácil pra se viver.Não é pra principiantes,como dizia Tom Jobim.