segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Mea culpa


A pessoa faz dieta e dá aquela escapadela básica num momento de stress ou, simplesmente, porque quer se dar ao luxo de experimentar um prazer - um doce, uma massa, algo que não cabe no cronograma dos pontinhos diários. Aí se corrói, se sente mal e, pra não sofrer tanto, acaba abandonando o programa todo.

Chega o frio intenso, a família acende a lareira e se delicia com sopas incríveis, se encolhe toda debaixo de um bom cobertor, agarradinhos pra esquentar. Mas é um prazer envergonhado, pois sabem que lá fora há outras pessoas morrendo de frio, sem cobertas ou casa pra morar.

Uma senhora é assaltada no ônibus e, além do trauma, se lamenta por ter perdido os documentos todos, em vez de carregar apenas cópias autenticadas deles, como os telejornais sempre aconselham.

***

Certa vez fiz um post aqui sobre o frio e estava refletindo recentemente sobre ele e a carga de culpa que carregava. Me senti extremamente babaca. Pagamos impostos, votamos em quem acreditamos que vai trabalhar pra reduzir a pobreza, ajudamos o próximo na medida do possível. Sempre se pode fazer mais, claro. Há quem o faça, e são pessoas mais que exemplares (não que a caridade, geralmente, não passe de uma forma de se aliviar a consciência – mas quem a recebe não tem tempo pra questionamento moral).

Mas é preciso haver sempre essa dor envergonhada? A culpa paralisa, deprime, não torna ninguém melhor por deixar-se absorver por ela. Não é um sentimento transformador, é destrutivo. Não é a culpa que vai nos fazer pessoas melhores ou não – mas sim nossa personalidade, nossas iniciativas, nossas atitudes com o mundo. A angústia existencial pressupõe o sentimento de responsabilidade, de tomada de posição na vida - não a culpa pequena, mesquinha.

Isso me lembra um livro do Camus em que o protagonista mata um ricaço – é uma cena forte e marcante, com uma lareira acesa durante o dia quente – e ao sair da casa com o dinheiro da vítima (ou algo parecido), começa a soluçar. E esse soluço o acompanha até quase o enlouquecer, porque não o deixa esquecer-se do que fez e, portanto, nem aproveitar a vida com o dinheiro que acreditava merecer.

O fato é: não adianta. O sofrimento de culpa, sozinho, é inócuo para o mundo lá fora. Não faz diferença.

6 comentários:

Liliana disse...

Adoro o I Ching porque vira e mexe ele nos lembra: SEM CULPA. ;)

Suzana Elvas disse...

Tina;

O cristianismo e o judaísmo são fontes de culpas imemoriais...! Já nascemos no berço da culpa, e nada mais lógico que levá-la pela vida afora. A mãe/mulher, principalmente, é a culpada mór de todos os males, reais ou fictícios.
Leia "As cinzas de Ângela" (um romance inacreditavelmente belo e igualmente ignorado, e que já virou filme): fez desaparecer metade das minhas culpas.
Bjs

RICA disse...

nossa, hoje ainda é dia 9!rs

Rubão disse...

Tina, acho que fazer o melhor que a gente puder dentro do nosso quadrado já tá bom demais.

Menas culpa, porque culpa é uma merda. E, muito provavelmente na maioria dos casos, não é majoritária ou inteiramente nossa.

Rita disse...

A pergunta é: como faz para não sentir?

Bj
Rita

cris disse...

Eu precisei fazer terapia, análise pra me livrar da minha. Mas às vezes, lá no fundinho, um resquício dela ainda se assanha. É uma merda.