terça-feira, 23 de outubro de 2012

Eu não sou Guarani-Kaiowá

Hoje eu postei esse vídeo, abaixo, sobre a situação dos Guarani-Kaiowá. Você não está sabendo? Então dê uma olhadinha, por favor.



Muitas pessoas estão alterando seus nomes para "Fulano de Tal Guarani-Kaiowá" no Facebook. Acho uma estratégia inteligente para chamar atenção para o assunto — foi assim que me interessei. Também está rolando uma petição, cujo objetivo não me parece muito definido, mas vá lá, trata-se de outra forma de fazer o drama indígena tornar-se conhecido. Louvável, também (aqui o link mais recente e mais interessante pondo alguns pingos nos ii).

Eu não mudei meu nome no FB. Postei o vídeo acima e logo em seguida compartilhei um site sobre aspas equivocadas. Acho até meio desrespeitoso, da minha parte (ei, eu sempre estou falando de mim, atenção), querer aliviar minha culpa, minha falta de interesse, minha total abstenção na questão indígena, com dois toques de mouse. Li a reportagem da revista que o jornalista do vídeo cita, anos atrás — acho que foi essa, mas pode ter sido outra, também, sobre outra aldeia.

E anos atrás, também, fui pro interior do Paraná, de carro. Paramos numa obra na estrada, perto de um posto de gasolina, onde há uma tribo indígena. Os indígenas do Paraná, acredite-me, são tão ou mais desgraçados que os da Amazônia, do Norte ou do Centro do país. São poucos, vivem mal, não são respeitados, nem têm qualquer programa especial que os atendam e, além disso, passam frio. Uma moça escreveu no post de uma amiga, no Facebook: "se os negros e brancos trabalham, minha opinião é que os amarelos também deviam trabalhar". Bem, moça, você está errada, errada demais. Mas eu também. Naquele dia um bando de índios "atacou" meu carro, que aos olhos deles devia exalar dinheiro, comida, riqueza. Dei meu pacote de salgadinho pra velha índia que quase pulou dentro do carro, chutando as crianças que pediam "bulacha bulacha". Dei as costas e voltei pra civilização. Contei do desespero e da pobreza destes índios em mesas de boteco. Soube outras histórias, do meu sogro, que era dono de um pequeníssimo lote de terra perto da aldeia e desprezava "essa raça" — como a maioria das pessoas que têm uma relação de exploração da terra. 

Não sei onde quero chegar com isso. Gostaria de ter sido outra, de ter feito algo. Acredito que votei em pessoas que se interessam pela causa, mas meu voto não foi definido por esse critério. Queria saber o que fazer, ainda, e se há tempo. Mas não acredito. Não sei por onde começar. Eles precisaram de mim, de nós, e agora sabem que só lhes resta morrer em paz. Bem. Esse direito nós não temos.





6 comentários:

Cris disse...

Nem sei o que dizer, Tina.

ARTFIL62 disse...

Oi Tina, cheguei até aqui através de sua postagem no Twitter. Sou professor de Filosofia na UFMT. Nasci no RS e vim para cá em 2011. Pasme, mas eu também não sei o que fazer. Não tive um aluno indígena ainda. Não saberei como agir quando uma pessoa destes povos for meu aluno: peço desculpa por todos os brancos nojentos que os matam? Peço para a turma saudá-lo com aplausos por ele ter vencido a vida e estar ali na sala de aula? Talvez, para não envergohá-lo, deixo tudo assim mesmo e o trato apenas com a mesma humanidade que trato todos? Mas isto parece pouco! Eu adicionei "guarani-Kaiowá" ao meu nome no FB. Não sei até que ponto isto soluciona algo, me pareceu solidariredade. Quando li o que você disse sobre os povos indígenas do Paraná, lembrei dos indígenas do RS (Carijós e outros) que foram dizimados pelas fazendas de gado, pelo preconceito e pelo medo. Lá eles também passam frio e pouca gente os ajuda. Ajudamos - meu sogro e sogra - alguns indigenas que estavam acampados (na veerdade sobrevivendo) as margens da RS 290 em Osório, por ignorãncia não sei de que povo eles eram. Mas era um quadro triste, bem como você descreve. Eu me sinto impotente diante de uma cultura ignóbil como a nossa que gerou esta situação. Parece que o contexto, a história toda deveria mudar. Sou cético quanto a isto, o Brasil não vai mudar. Isto é mais triste ainda, pois daqui a algum tempo será uma outra etnia.

Rita disse...

Comentei essa história toda com meu marido hoje e ele mal acreditou. É fácil ver os elementos que transformam isso tudo em uma história que, de tão absurda, parece irreal (falta de empatia, inversão de valores, umbigolândia). Mas é muito difícil acreditar em uma solução eficaz que una solidariedade e justiça nesses casos. Nesse caso específico dos Guarani-Kaiowá, talvez a pressão popular consiga reverter a decisão judicial, quem sabe. Ou é só meu otimismo alienado mesmo. Vergonha demais.
Bj
Rita

Iara disse...

Eu às vezes me pego pensando se há algum outro caminho para o sucesso - aí entendio como alguma tranquilidade econômica, a felicidade, e alguma paz de espírito - que não o cinismo.
Porque você é uma pessoa bacana e quer viver em paz. Veja você, eu também sou. Se a gente for explorar, quase todo mundo é. Mas não é. Porque somos todas parte disso. E o fato que é que os Guarani-Kaiowá desaparecessem amanhã, nos chocaríamos, mas depois do choque, de compartilhar links, ler matérias, lamentar um tanto, a minha vida e sua continuariam a mesma. Porque estamos em uma sociedade calcada na alienação e na ignorância. Somos capazes de esboçar alguma empatia por aqueles que se parecem mais conosco. E só.
Desculpe o tom amargo. Mas é isso que esta história me evoca. A amargura de saber que eu sou parte disso, que qualquer coisa que eu faça vai servir mais para aplacar a minha consciência e dormir tranquila do que pra ajudar quem quer que seja. E mesmo sabendo que o mundo não será um lugar melhor se eu ou você não vivermos em paz, eu não sei mesmo se há paz possível. E isso, claro, é amargo demais.

Luciana Nepomuceno disse...

Baby, eu já fiz coisas, sabe. 18 meses, todo fim de semana. Aqui há índios e eu só soube deles, praticamente muro com muro, porque uma ONG me informou e me pagou (mal, mas e daí?) pra trabalhar lá. Fui, gostei, eles gostaram, conseguimos uns financiamentos, havia uma escola co-gerida, havia um ou outro arranjo positivo. Mas não fez diferença. Ou melhor, fez diferença pra mim, pelo que aprendi, pela puxada no meu tapete.

E daí, luciana? É só pra se gabar? É justo o contrário, é pra dizer que entendo, como você, que o que faço é nada e que não me dá o direito de viver ou morrer em paz.

Mas, eu e turma da Pollyana, na nossa jubilosa ingenuidade, ficamos torcendo e achando que o fato de tanta gente perceber que já não é possível viver sem sentir-se inquieto, já seja um avanço, senão para este caso específico, para nós, como espécie. O que, claro, volta a ser nada para quem sofre no agora, mas isso nem eu nem a Pollyana sabemos responder.

A. Palmer disse...

Tina, fico feliz por tua postagem. Oxalá, a maioria do povo brasileiro se perguntasse sinceramente sobre o que poderiam fazer pelos Guararani-Kaiowá - e, em verdade, bem pouco podemos além de assinar e divulgar a causa. Isso só nos mostra como a causa indígena está se tornando cada vez menos importante para a sociedade e o governo. Se vier a acontecer o que é temido, atingiremos, como país, um patamar vergonhoso e extremamente irracional.