domingo, 2 de agosto de 2009

Um post politicamente incorreto

Esse post baseia-se exclusivamente na minha memória emocional. Minha primeira lembrança política é a posse de um general presidente - o Médici passando o cargo pro Geisel. Perguntei pro meu pai o que mudava, ele suspirou e disse que nada, que esse país tá perdido e que era tudo a mesma merda etc. etc. Fez um discurso daqueles - pra uma menina de 4 anos, foi um pouco demais.
Pula pro Figueiredo. Um ser humano desprezível. Todo um anedotário ao seu redor. Mas veio a tal da abertura, as Diretas Já, a eleição do Tancredo. Mesmo sendo nova demais eu podia perceber a angústia da necessidade de uma guinada democrática. No interior não tivemos mortes, torturas, perseguições nem censura, mas havia uma urgência. Eram dias empoeirados e sufocantes: sempre achei que o tom amarelado das fotos da época eram mais fiéis ao emocional do que ao figurativo.
O dia em que o Tancredo morreu foi um desespero. Além do feriado mais chato do universo, com todo mundo em casa deprimido, tudo fechado na cidade e enterro ao vivo na TV - com Milton Nascimento cantando Coração de Estudante no modo random. Mas além da morte, além do drama, da tragédia, da frustração, vinha o desgosto: Sarney presidente. De repente, quem era aquele jacu, aquele coronelão bigodudo, aquele peemedebista de última hora, que tinha acabado de cair de pára-quedas no partido só pra entrar na chapa anti-Maluf? Obviamente preferia-se o Ulisses Guimarães, que era presidente da Câmara, pro cargo.
Ele não tinha sido convidado pra festa pobre da democracia, era o que se comentava. Não estava à altura do papel de primeiro presidente civil depois de 30 anos de farda. Mas foi levando. Criou o Plano Cruzado e eu nunca mais veria (nem mesmo no Plano Collor) tamanha boa vontade popular - diretamente proporcional ao tamanho da cagada. Vizinhos se diziam fiscais do Sarney. A mídia também decidiu criar simpatias pro novo presidente: sua mulher tão discreta, sempre de coque e jeito de enlutada; seu sobrenome que vinha da forma como seu avô era chamado - Sir Ney. O folclórico era revestido de respeito, transformado em tradição.
Que me lembre, sem ter de consultar o Google (preguiça e falta de tempo), ele foi do céu ao inferno em pouco tempo. O plano era uma bomba, faltava de tudo nas prateleiras, o leite era jogado nos rios e o boi sumiu do pasto. Lembro da gozação dos comediantes Tatá e Escova no programa do Faustão, Perdidos na Noite, lendo a enorme lista de preços e sempre começando por "Cê-zê-cifrão" (CZ$). Éramos ridículos. A super aprovação do Plano virou o maior índice de rejeição de um presidente, acho que até hoje nunca superado.
O que faz um sujeitinho desses, que se agarrou num cargo ao qual não estava preparado, que enfiou o país numa inflação estrondosa, que envergonhava a todos ao garantir que estava fazendo a transição para a democracia - quando até um poste no cargo teria o mesmo efeito? Se agarrou à Presidência, claro, com um ano a mais no Poder. E ainda teve o escândalo da Ferrovia Norte-Sul, com edital viciado e tals, que hoje sabemos, foi só o começo (ou já era o meio) de uma longa carreira de negócios escusos.
Enfim saiu, ridicularizado e desprezado, penou um tempo sem cargo. O que faz uma pessoa que já chegou ao ápice de sua carreira? O Bill Clinton dá palestras. O Itamar se retirou e virou conselheiro do PMDB. O Fernando Henrique viaja pelo mundo se exibindo. Lula não quer o terceiro mandato, sabe que a história só se repete como farsa. O Sarney? Foi se eleger senador de um Estado que não era o dele - porque em seu próprio curral não tinha mais apelo.
(Qual o outro presidente quis - e voltou - pra política? O Collor)
Mas não há nada que a compra de emissoras de tv e rádio não cure, marketeiristicamente falando. Virou escritor, foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras, usa fardão e economiza em estacionamento quando vai ao Rio; é tratado por doutor em vez de coronel. Fez a filha senadora também, quase candidata a presidente. Assina artigos na Folha e exige respeito à biografia. Consegue. O presidente Lula pede respeito à sua biografia.
Agora dizem que depois de todo o vexame dos atos secretos e da conversinha de boca-mole de sua família ao telefone - reinstaurando a censura que ele se vangloriava ter ajudado a acabar, nos anos 80 - Sarney pode cair, pode sair pela porta de trás, como convém, sim, à sua biografia mesquinha, destruidora, parasita.
Foi um presidente que não deixou nada, um senador que não fez nada (me cite um projeto do Sarney, assim de cabeça. Ou não: faça uma pesquisa e me conte qualquer coisa que ele tenha feito pela população brasileira) a não ser se agarrar ao cargo e ao que de pior pode existir na política.
Mas eu ainda duvido. Essa gente é viciada e viciosa. Aguardemos o próximo capítulo dessa novela de terceira. E que fique claro: escrevi tudo isso porque eu, há muito tempo, ODEIO José Sarney.

10 comentários:

Anônimo disse...

seu poder de síntese, perfeito.
Faltou falar, ou mostrar a metade das terras em que ele é proprietário lá na terrinha dele.
Caramba, vc viu?
o detalhe, usa fardão e economiza em estacionamento quando vai ao Rio, patético isso.
a gente merece isso?
madoka

asnalfa disse...

PLAC PLAC PLAC!!!
A solução do Brasil é dissolução do Congresso e colocar o STF pra legislar as leis.

Haline disse...

Nossa, Tina, não posso concordar mais. Nasci num momento politico um tantinho a frente. Minha primeira lembrança é minha avó chorando em frente a tv a morte do Tancredo. Mas a partir dai, me lembro bem. Obviamente sem maturidade o suficiente, mas lembro bem a situação patética em que vivemos. E algumas pessoas da família que gostavam dele, justamente por serem tão despreziveis qto ele. Chegava o natal e diziam que iamos comer o "bacalhau do Sarney". Tudo funcionário público beneficiado por um sistema mega corrupto. É inacreditável que esse cara ainda figure na política. O Collor é fichinha.

Anne disse...

A decepção que tivemos com o Sarney foi muito grande mesmo. Lembro do meu pai todo orgulhoso sendo "fiscal do Sarney". Eu, na verdade, nunca gostei do Sarney.
Agora então, me dá tanto enjoo política atualmente, que mesmo sendo enganada, prefiro ficar lendo sobre a diminuição de 3,5 cm de medida que um creme pode fazer. Beijinhos,
=~.^=

lola aronovich disse...

É, nunca entendi como alguém pode "respeitar" o Sarney. Quando estive em São Luis, quase vinte anos atrás, fiquei surpresa ao ver como montes de avenidas, ruas, escolas, enfim, qualquer coisa pública, tinha placa com o sobrenome Sarney e Ribamar. Típico coronelismo. Claro que na Bahia é igual com o ACM. E nem dá pra falar muito, que aqui em SC tá cheio de lugares públicos com esse palavrão que é Bornhausen. É muita vaidade, né?
Eu nunca caí nessa de "Sou fiscal do Sarney". Em 86 eu ainda estava muito revoltada que as Diretas Já não tinham passado.

Rubão disse...

Acho que o momento é oportuno para a população brasileira aderir em massa ao "Sou fiscal do Sarney". Até que ele saia de cena, pela porta dos fundos.

Eu sou fiscal do Sarney!

cris disse...

mais uma pra engrossar o coro de 'ODEIO Sarney'. acho que é unânime, né? porque ninguém em sã consciência pode achar nada de bom num verme desses. bjs

Tina Lopes disse...

Madoka, as terras do Sarney são só o Maranhão todo, né? Nojo.

Asnalfa, não sei a solução mas não acho tbm que seja essa...

Haline, lembrei duma engraçada: um chefe meu quando ia ao banheiro dizia que ia passar um fax pro Sarney.

Anne, eu gosto de creminhos e de política, apesar de tudo.

Lola, e eles demoram a morrer, né? E ainda procriam pra cacete. Eu nem sabia desse filho empresário do Sarney. Sabia que a Roseana é casada com o cunhado do irmão?

Rubão, você é genial, posso lançar a campanha no Twitter?

Cris, e ainda usa bigode. Me poupe.

Rubão disse...

Sure! Vou inté engrossar a campanha lá no blog. E genial mesmo é nossa elite política, não? Mais imorredoura que o Moon-ha, aquele, o de vida eterna.

Anônimo disse...

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