domingo, 31 de outubro de 2010

Um pouco de auto-ajuda e política

Dia desses fui numa palestra de auto-ajuda empresarial. Não me julgue, fui retribuir uma gentileza e, de quebra, fazer uma, ahn, pesquisa sociológica. Pois estava bombando a tal palestra. Faltaram lugares e cadeiras tiveram de ser improvisadas pela organização. O palestrante discorreu sobre a forma com que as pessoas encaram sua carreira, seus pontos fortes e fracos, limites a serem transzzzzzzz numa organizzzzzação etc. e tal. Comparou personalidades empresariais a animais - tem o hipopótamo, a águia, o cachorro etc. O hipopótamo não pode subir na árvore, o macaco pode. E que existem 3 tipos de pessoas - o visual, o auricular e o que fala demais (esqueci o termo, não me peça pra anotar palestra). Achei tudo muito batido. Além de ruim, claro. O cara diz que um gênio do RH revelou que o segredo do sucesso é "conheça-se" e pensei em ir embora porque Sócrates não merece tanto desaforo.

Foi mais ou menos nesse pedaço que passei a prestar atenção somente no público. Mulheres de unhas e cabelos perfeitos, sapatos combinandinho etc. Homens engravatados ou, pelo menos, arrumados (nada igual aos maloqueiros que vão nas palestras de filosofia do Mr. Lopes). Reconheci alguns da minha área. Gente bem-sucedida e, com toda certeza, competente, capaz, inteligente. De bocas abertas, sorrisos amplos. Naquela espécie de transe que a gente vê nos cultos evangélicos da televisão: rindo, concordando ao menear as cabeças, identificando-se com as situações descritas pelo palestrante. Boa parte segurava nas mãos, como um amuleto, a senha para receber, mais tarde, o autógrafo do autor - já que obviamente se tratava de divulgação de mais um livro de auto-ajuda.

Fui embora (antes do fim do 'evento') encafifada com tamanha aprovação a um conjunto tão grande de asneiras, por gente que, tenho certeza, sabe usar o tico e o teco.

Mais tarde, já de pijama e com tempo pra pensar na vida, tudo me pareceu tão claro. Há pessoas que saem de casa, se programam e pagam pra ouvir aquilo que já sabem, não mais, nem menos.Gostam  de ter suas próprias convicções refletidas e repetidas por alguém com credenciais, status. Todos fazem de conta, ou vai ver acreditam, que estão lá para aprender algo novo, mas não é o que acontece. E acaba todo mundo  agradecido e lisonjeado por não terem sido confrontados com um questionamento que os faça perder o sono, que gere dúvida, ou que faça pensar algo além de "estou certo" - inclusive o palestrante.

A sensação deve ser boa mesmo. A campanha eleitoral taí pra provar que ninguém quer ouvir de verdade qualquer opinião diferente da sua. Veja o caso do twitter. Sempre fiz questão de seguir pessoas interessantes, seja de direita, esquerda, centro, alienadas - ora, na verdade nunca as escolhi por isso, assim como não sei por que pessoas que não me conheciam antes, do blog, me seguem. Meu barato é ouvir vozes de todo canto, sobre de tudo, um pouco. Já ouvi críticas do tipo "mas por que você segue essa pessoa horrível!?", tratando de gente interessante.

Daí veio a campanha e ok, sou dilmista não-praticante - até a revelação do resultado, porque daí o cacoete profissional é de virar oposição, procurar defeito (gosto de me sentir preparada para voltar à reportagem a qualquer hora, hahahaah) - mas me senti obrigada a dar unfollow em diversos perfis. O confronto de ideias rapidamente virou troca de ofensas. Não posso seguir alguém que ofende pessoalmente um amigo - e olha que os envolvidos nem se seguiam, ficavam sabendo só através dos novos "terceiros", os RTs.

Chego ao fim da campanha, portanto, com uma timeline de Dilmas (pessoal mais fervoroso trocou seus avatares pela foto da candidata na ficha policial, acho bacana mas não reconheço mais ninguém). Sem querer acabei como as pessoas da palestra, de boca aberta, ouvindo (lendo) só o que já sei. É confortável, não vou negar, e me poupa a gastrite. Mesmo porque não é do meu feitio brigar por um candidato e muito menos, tentar convencer alguém a mudar sua opinião.

O debate político no twitter, que eu ingenuamente imaginei  revolucionário, inovador, virou um confronto de monólogos, salpicado de xingamentos, dos dois lados - cada um com sua platéia feliz em confirmar sua inteligência.

5 comentários:

Rita disse...

Então saí no lucro. Minha timeline tem serristas, convictos ou não, meus amigos continuam amigos, dilmistas ou não, minha convicção foi confrontada todo dia - não no twitter, é verdade.

Mas, de novo, seu texto arrebenta. E fui lendo o início, sobre a palestra, e já sabendo que você estava falando da campanha (uau,sou um gênio, hehehe). E visto minha carapuça aqui: eu não quero mais ler certas revistas ou assistir o JN. Putz, eu fico mal mesmo. E não é por causa das críticas ao governo - que eu também faço; mas pelo insulto à minha inteligência. Que pode não ser meu maior traço, mas existe e me causa náuseas diante de tanta manipulação descarada. Comofaz?

Beijo, linda. Tomara que a partir de primeiro de janeiro a gente esteja cobrando da Dilma e não do Serra.

Rita

Tina Lopes disse...

Oi, Rita, honey, nem falo desses excessos não - JN eu só assisto durante campanhas, pra passar raiva mesmo, e Veja eu não leio nem na sala de espera do dentista. Vc não tem carapuça nenhuma pra vestir. ;)

Lu disse...

yes!

cris disse...

Eu gosto de ouvir opiniões diferentes das minhas. Mas tem coisas que são inegociáveis. Agora, to rindo muito com "pensei em ir embora porque Sócrates não merece tanto desaforo", hahahahahahaha. Tina Lopes = sempre boa. Bjs

Denise disse...

ah Tina, sempre vou lamentar o pouco tempo que tivemos pra conviver. você é ótima!